quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

# 634

























«Os empregados dos restaurantes das praias de Goa habituaram-se a não enxotar os cães vadios que rondam entre as mesas á procura de comida e mimos. Não têm outro remédio: os turistas zangam-se quando vêem maltratar animais. Esta convivência é frágil, bem entendido. Acaba quando acaba a estação. Muitas vezes acaba quando acaba o dia. Mas enquanto dura, cães e pessoas vivem razoavelmente bem uns com os outros.
Assim estava a Marineta. Demos-lhe este nome um bocado ridículo eu e a Patrícia, minha mulher, porque a cadela é um bicho ponta acima, ponta abaixo, cheia de ossos fora de sítio, doce e simpática, como se não soubesse que é vadia. Além disso estava tão grávida que parecia a carreira regular do Margão.
No dia 24 de Dezembro, já o sol se ía pôr no mar, a Marineta começou a andar por entre as mesas do restaurante onde estávamos de maneira desatinada e urgente. Percebemos que procurava sítio onde parir. É cadela sem experiência e tino, não tinha preparado nada convenientemente. Acabou por se refugiar nuns arbustos onde pensou que estava ao abrigo do sol, da noite e dos corvos. Daí a bocado ouvimo-la ganir. Fomos ver e tinha nascido um cachorro.
E foi então que aconteceu outra vez o suave milagre a que já assisti frequentemente, sempre incrédulo como se estivesse na ombreira de outro mundo: a cadela escolheu a Patrícia. Veio chamá-la à mesa com latidos breves e acertados. Levou-a ao seu refúgio precário. E a Patrícia pegou no cachorro. Fomos os três, eu, ela, a Marineta, para um sítio melhor, mais abrigado, desta vez escolhido por nós. E aí, de cada vez que sentia virem as contracções, a Marineta saia do canto onde estava, vinha chamar a Patrícia e esta assistia ao parto, massajando-lhe o ventre. Nasceram assim cinco cachorros na noite de Natal que começava.
E terminou para nós mais uma vez a aparente simplicidade do amor.
Como acontece a tantas e tantas pessoas que sabem o que significam os animais, percebemos logo que a Marineta e nós tínhamos arranjado uma situação muito difícil. Não podemos levar a cadela e os cachorros para a casa onde vivemos agora. Não é esse género de casa. Por outro lado deixar a cadela e os cinco cachorros no restaurante seria condená-los a uma morte certa.
A minha senhora dos bichos, de alma devastada, decidiu o que era preciso fazer e pediu-me que a ajudasse. Fui despejar no lixo um balde grande de plástico enquanto o jantar da consoada começava ali ao lado, á luz de uma fogueira feliz. Nesse balde, a Patrícia afogou quatro dos cinco cachorros, quatro dos cinco inocentes, para que um possa sobreviver. Foi esse o acordo prévio a que chegámos com os empregados do restaurante.
A Marineta e o seu cachorro primogénito amanheceram no dia de natal de 2008. Vimo-la andar no meio das mesas parecendo procurar os filhos que perdeu, pensa ela que nos arbustos e na noite.
Chamámos Menino ao cachorro que sobreviveu, mas havemos de pensar num nome talvez mais apropriado quando a tristeza e o peso da noite se nos forem do coração.» 

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