terça-feira, 19 de novembro de 2013
# 428

Que te pareceu o Gray? Fez o seu filme para uma library do cinema da América, mas em depuração formal ninguém o bate. Respondendo com o intelecto é o seu melhor filme. Respondendo com as entranhas gosto mais dos outros.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
# 427
A única hipótese de Tal Pai, Tal Filho deixar de ser o melhor filme que vi nesta edição do LEFFest é a confirmação, logo mais, das expectativas em relação ao último James Gray. O título deste belíssimo Kore-eda não deve ser interpretado como um determinismo rígido, antes abre para a possibilidade de evoluirmos e de nos transformarmos, como filhos que somos e como pais que seremos. Tal como a pedra no rio que nunca é a mesma, fruto da erosão exercida pelas águas. Mais sobre Tal Pai, Tal Filho (que tudo indica virá a estrear em breve) daqui por umas horas, nos dois parágrafos que lhe são dedicados À Pala de Walsh.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
# 426
Numa programação quase inesgotável de recursos e percursos possíveis, o Carlos Natálio (CN) e o Ricardo Gross (RG) foram espreitar os zombies de Jarmusch, duas novas delícias romenas, a ambição desmedida do jovem polaco Marcin Malaszczak e a mestria do eterno Arturo Ripstein. Ah, e há um par de lésbicas que viram um urso. [continua ali].
# 425

É o nome Adèle, mais do que o rosto da actriz que a câmara de Abdellatif Kechiche não larga a não ser por segundos, que encerra o tema do filme. Adèle que em árabe quer dizer justiça, daí as duas partes de A Vida de Adèle, para obedecer a um princípio de justiça que se liga à lei da vida. Tudo o que começa tem forçosamente um fim, ou dito de forma prosaica, citando um dos diálogos, "a vida a dois é complicada". Educação sentimental ampliada até que se notem os poros.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
# 422
Gloria, interpretada por Paulina García. Se isto não é uma actriz. O selo da Alambique é garantia de estreia.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
# 420
Algumas impressões partilhadas por mim e pelo Carlos Natálio, no À Pala de Walsh, sobre filmes vistos nos primeiros dias do LEFFest.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
# 414
"My wife is seven months pregnant with a baby we didn't intend. My fifteen-year old son has cerebral palsy. I am an extremely overqualified high school chemistry teacher. When I can work, I make $43,700 per year. I have watched all of my colleagues and friends surpass me in every way imaginable. And within eighteen months, I will be dead. And you ask why I ran?"
Breaking Bad é das melhores séries que me foram dadas a conhecer. No momento em que digo isto vi a primeira temporada (7 episódios) e mais 7 de 13 episódios da época seguinte. É uma série sobre a mentira, sobre o que a mentira revela de verdadeiro em relação a quem a profere, as intenções por detrás da mentira e as consequências da mentira nas relações que estabelecemos com outros. A mentira tem tendência para desencadear outras mentiras. Abri com a citação de um momento crucial, quando a personagem principal, Walter White, após ter desaparecido por dois dias, e ao regressar se ter refugiado num estado clínico denominado de "fuga psicológica", para não continuar retido no hospital oferece uma versão dos factos ao médico que o avalia, que é em tudo verdadeira embora esconda o que na verdade aconteceu, mostrando por outro lado a ambiguidade da motivação de Walter para se dedicar ao fabrico de metanfetaminas. Será para deixar a família amparada financeiramente após a sua morte, ou para escapar às circunstâncias que dá ao psicólogo como explicação? Ou poderá ainda ser um pouco de ambas.
Breaking Bad oferece também uma possível versão actual, realista e texana da novela Dr. Jeckyll e Mr. Hyde, quando se dá o desdobramento da identidade do Dr. Walter White no Mr. Heisenberg, nome pelo qual Walt passa a ser conhecido no submundo do crime, numa zona de fronteira entre México e Estados Unidos. Pega-se em alguém com o nome de White, não no sentido de vazio mas de limpo, e inscreve-se sobre ele uma nova e perigosa identidade. Heisenberg é destemido, ao contrário de Walt que não quer largar o seu bem mais precioso: a família (mulher e filho). Embora exista ressentimento nessa condição. O casamento já conheceu melhores dias, e o rapaz é portador do estigma da deficiência.
Breaking Bad conta a história de um homem que a partir do momento que dá a perda da vida por iminente, acorda um subconsciente de coragem na transgressão impensável para alguém integrado e discreto como Walter. Walt faz aquilo que nós não temos coragem para fazer porque a comum das vidas raro leva o homem a ser confrontado com os seus limites e o modo de os superar. Isto num registo narrado e filmado como as adaptações de Cormac McCarthy ou Elmore Leonard ao cinema e televisão. Arriscaria dizer que as chegando a ultrapassar, como é próprio da sua natureza. A natureza de Heisenberg. Olé!
Breaking Bad é das melhores séries que me foram dadas a conhecer. No momento em que digo isto vi a primeira temporada (7 episódios) e mais 7 de 13 episódios da época seguinte. É uma série sobre a mentira, sobre o que a mentira revela de verdadeiro em relação a quem a profere, as intenções por detrás da mentira e as consequências da mentira nas relações que estabelecemos com outros. A mentira tem tendência para desencadear outras mentiras. Abri com a citação de um momento crucial, quando a personagem principal, Walter White, após ter desaparecido por dois dias, e ao regressar se ter refugiado num estado clínico denominado de "fuga psicológica", para não continuar retido no hospital oferece uma versão dos factos ao médico que o avalia, que é em tudo verdadeira embora esconda o que na verdade aconteceu, mostrando por outro lado a ambiguidade da motivação de Walter para se dedicar ao fabrico de metanfetaminas. Será para deixar a família amparada financeiramente após a sua morte, ou para escapar às circunstâncias que dá ao psicólogo como explicação? Ou poderá ainda ser um pouco de ambas.
Breaking Bad oferece também uma possível versão actual, realista e texana da novela Dr. Jeckyll e Mr. Hyde, quando se dá o desdobramento da identidade do Dr. Walter White no Mr. Heisenberg, nome pelo qual Walt passa a ser conhecido no submundo do crime, numa zona de fronteira entre México e Estados Unidos. Pega-se em alguém com o nome de White, não no sentido de vazio mas de limpo, e inscreve-se sobre ele uma nova e perigosa identidade. Heisenberg é destemido, ao contrário de Walt que não quer largar o seu bem mais precioso: a família (mulher e filho). Embora exista ressentimento nessa condição. O casamento já conheceu melhores dias, e o rapaz é portador do estigma da deficiência.
Breaking Bad conta a história de um homem que a partir do momento que dá a perda da vida por iminente, acorda um subconsciente de coragem na transgressão impensável para alguém integrado e discreto como Walter. Walt faz aquilo que nós não temos coragem para fazer porque a comum das vidas raro leva o homem a ser confrontado com os seus limites e o modo de os superar. Isto num registo narrado e filmado como as adaptações de Cormac McCarthy ou Elmore Leonard ao cinema e televisão. Arriscaria dizer que as chegando a ultrapassar, como é próprio da sua natureza. A natureza de Heisenberg. Olé!
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
terça-feira, 29 de outubro de 2013
# 411
"So many of your songs have pain and death in them. What attracts you to these themes?
Isn't life full of pain and woe and sorrow? It's like the slices of life.
As you get older, is that more the case?
Well, I think so. It's a different kind of pain when you get older.
Less mind pain, more body?
Hm-hmm."
Isn't life full of pain and woe and sorrow? It's like the slices of life.
As you get older, is that more the case?
Well, I think so. It's a different kind of pain when you get older.
Less mind pain, more body?
Hm-hmm."
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
# 410

Gravity/ Gravidade (2013) deveria ter terminado antes das personagens abrirem a boca, e as suas histórias de vida serem emolduradas num sinfonismo de quinta categoria que é apenas mais um dos absurdos do filme de Alfonso Cuarón. Somos previamente avisados de que no espaço não existem nem som nem oxigénio, para que de imediato a contradição se instale ao nível dos tímpanos (convenção de cinema, eu sei...) enquanto os ouvimos perorar banalidades sobre a filha que morreu criança ou a mulher que fugiu com um outro homem, e a música vir sublinhar a acção e as narrativas passadas para que não se quebre a corrente emocional e o espectador não seja projectado, tal como as personagens, no negro abismo. Gravidade torna-se enjoativo e o refluxo não é produto das acrobacias involuntárias dos dois astronautas, antes resulta de um argumento que tem a idade mental destes novos filmes de super-heróis que se sucedem a um ritmo tal que os torna indistintos, a todos, entre si: mesmo para quem se limita a conhecer-lhes os trailers. Fala-se também do heroismo no feminino, coisa rara no cinema. Por uma vez um filme protagonizado por uma mulher que assume o papel do herói (papel activo), em vez de representar o estereótipo da vítima (papel passivo). É de justiça desmontar a falácia de quem assim argumentar, reportando-nos ao momento em que a personagem de Sandra Bullock é "visitada" em sideral delírio pela figura do astronauta de George Clooney (tão galhofeiro que aparenta a confusão entre o filme onde está e um capítulo da saga Toy Story). Ela salva-se, por assim dizer, por intervenção divina, sendo que a divina figura tem uma vez mais a imagem masculina. Mas talvez este seja o menor absurdo de um filme que os acumula como quem se passeia de estação espacial em estação espacial, como se ali imperasse o mais pragmático esperanto. Gravidade é cinema em modo simulador de navegação pelo espaço, com imagens 3D nunca vistas que impressionam, alimentado por uma narrativa tão juvenil que atenua qualquer angústica ou sério envolvimento que o projecto pudesse querer sugerir. Não detestei o filme. Apenas o achei irrelevante.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
# 402

Jeune et Jolie trouxe um "rosto" para as manchetes de Cannes e do resto do mundo, que durou como todas até à manchete seguinte. Mas o que é que este filme traz à obra do seu realizador? Uma variação sobre filmes anteriores (em particular sobre o filme anterior de François Ozon, Dans la Maison/ Dentro de Casa, de 2012), o que é curto, quando o que existia era de si modestamente significativo: filme de provocador bem comportado. A adolescência, a líbido, o subconsciente, algo para o qual se olha com a curiosidade e o receio do que escapa ao nosso controlo. É o isco de Ozon, desta vez na figura de uma jovem muito bela que se prostitui porque sim. Porque as raparigas "are fucked up". Conclusão a que Louis C.K., por exemplo, tinha já chegado e com mais contundente economia de discurso. Não passou em Cannes. Fez outro tipo de manchete. A do passa palavra, junto com o respectivo link.
(na Festa do Cinema Francês)
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
# 397

Quer no filme A Rainha (Stephen Frears, 2006) como na mini-série Parade's End (HBO, 2012), é-nos dado a observar e sentir a alma conservadora através dos dois protagonistas: Isabel II de Inglaterra e o aristocrata Christopher Tietjens, interpretados por Helen Mirren e Benedict Cumberbatch. Não encontrei as imagens certas para ilustrar a ideia que passo a exemplificar. No meu entender, nada define a alma conservadora como o amor à terra, mais no sentido de mundo natural que de pátria, e acima de tudo no sentido em que se trata de um mundo que se perpetuaria na sua lógica não fosse a intervenção do homem sobre ele, tantas vezes abusiva. A dada altura, no filme de Frears, a rainha aproxima-se de um veado vermelho abatido em caçada, numa atitude respeitosa, quase compungida, para com o animal (no que este representa) cuja pose majestática tinhamos observado antes, em total harmonia com os espaços em volta. Também Tietjens, que é um indivíduo desprovido de vaidade, quando não consegue evitar o desastre com a charrete onde passeia com Valentine Wannop, de que resulta o ferimento da égua da família da rapariga, abraçará mais tarde o animal pedindo-lhe desculpa pelo sucedido, pela fraqueza da sua alma entorpecida pelo interesse que Valentine lhe despertou, e que conduziu ao acidentado devaneio de que o animal foi o mais prejudicado. Pode parecer fútil aos olhos mundanos esta ligação da alma conservadora a aspectos remotos à nossa vida moderna e citadina. A mim comove-me, imensamente.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
# 395
«There were numerous tributes from family and friends including one Jerry Jernigan, a prisoner serving 99 years at the Tennessee State Penitentiary where he met Johnny in 1974. Jerry was an aspiring songwriter and gave Johnny a tape of one of his songs, 'It Ain't No Big Thing', which led to a songwriter's contract with the House of Cash.
Jernigan told of an occasion when, feeling particularly lonely and depressed, he phoned Johnny, asking that he simply be allowed to hear his voice. Johnny and June talked to him for 15 minutes, the maximum allowed under prison rules. "Knowing Johnny Cash has given me self-respect, encouraged me to upgrade my morals, and most of all stand up like a man and be counted."»
# 394

Vinte anos passados continua a ser o filme que prefiro de André Téchiné. A diferença de duas décadas produz os seus efeitos. É bem mais doloroso ver Ma Saison Préferée/ A minha Estação Preferida (1993) quando se deu o salto para a geração seguinte. Este é um filme sobre o mais crucial dos temas: o curso da vida, da juventude à idade adulta, e desta à velhice que para muitos de nós será "o começo do massacre". Há indícios do massacre antes de se chegar a velho, quando percebemos a pessoa em que nos tornámos e que a única hipótese de redenção passa por aceitar quem somos. O curso da vida apresentado por Téchiné está longe de ser tranquilo, os conflitos sucedem-se com uma frieza quase bergmaniana. Bergmaniano é também o falso flashback que coloca Emilie (Catherine Deneuve) a falar com os pais, corpo de adulta no tempo da criança, a dizer-lhes que está muito bem sozinha sem ter um irmão. O irmão nasceu e veio a chamar-se Antoine (Daniel Auteuil). A relação dos dois é marcada por ambiguidades que levaram a que não podendo ficar muito tempo juntos, a cada reencontro o desejo de não-separação fosse igualmente muito forte. E depois existe essa personagem, fortíssima, que é a mãe de Antoine e Emilie, Berthe, interpretada por Marthe Villalonga. Não há lugar à visão beatífica da mulher do campo, trocada por uma figura de personalidade bulldozer que diz o que pensa não olhando a quem possa magoar. A Minha Estação Preferida trabalha o realismo até à alma e até ao osso. Obra-prima para rever em qualquer idade.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
# 391

Dead Man (1995) é um filme falado, tem uma cadência de diálogos como as de grande parte dos filmes a que assistimos, mas é como se Jim Jarmusch se propusesse o desafio, a cada plano, de fazer um mudo. A alma do cinema mudo, a sua expressividade interior feita imagem, está toda em Dead Man, bem distante de exercícios copistas, que se limitam a reproduzir o formato, como o caso recente e multipremiado de O Artista (2011). Johnny Depp é dos raros actores hoje em dia que podiam figurar num filme de D.W. Griffith (1875-1948). Compare-se as imagens de Dead Man e de Broken Blossoms (o que foi possível encontrar desta obra de 1919). E preste-se finalmente atenção às palavras de William Blake, contabilista que se descobre poeta ao dar de caras com o índio Nobody: "Some are born to sweet delight/ Some are born to endless night". Como se apenas com o preto-e-branco da fotografia, que marca igualmente a primeira metade da história do cinema, fosse possível filmar a noite interminável que é a existência de William Blake. Primeiramente um morto-vivo, para no final de Dead Man se tornar num vivo-morto.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
# 388
"Ausónio sabia compor versos e ensinar Gramática, e como honesto retor deixava em paz a enigmática trama do universo; dificilmente se haverá perguntado como teriam sido necessárias tantas longas marchas além dos Alpes, uma guerra e a arte militar romana para que ele simplesmente pudesse ser feliz com uma mulher. A mão que nos agrada apertar e beijar comove-nos também por vir de tão longe e porque na forma e na sedução dos seus dedos cooperaram humildemente o Big Bang, o Quaternário, as migrações dos Hunos das estepes da Ásia."
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
# 386

Foi coerente até ao final a filmografia de Sydney Pollack: dos ainda clássicos, um dos românticos. O tema central da sua obra foi invariavelmente o encontro de um homem com uma mulher, tantas vezes concluído numa despedida. Digo tantas vezes com a convicção de que foi em todas as vezes. Pollack levou fora do cinema a mais comum das vidas: em tempos actuais menos comum. Foi casado e pai de família. O cinema permitia-lhe projectar-se nas existências dos seus protagonistas: homens e mulheres. Nos planos finais de A Intérprete (2005), obra que oscila entre a sobriedade fora de moda e a tensão dramática modelada em best-sellers, resultando num tom de muito apreciáveis meias-tintas, registo o último encontro de Silvia (Nicole) e Tobin (Sean). Mais uma despedida. Ela será deportada para África e ele passará a viver com a África dela no pensamento. O casaco de bombazine de Tobin Keller cria a identificação com os heróis do cinema liberal da década de 70 (Redford primeiro entre iguais). África em sonhos de cinema é também Sydney Pollack em estado puro. E em puro estado se foi, guardado nos pensamentos de quem continuará a despedir-se dele através do filmes.
# 385

Vi recentemente Woodstock (1970), filme de Michael Wadleigh sobre um dos acontecimentos culturais, políticos e sociais de maior relevo no século XX. Não é extraordinário enquanto filme mas é extraordinário como documento. Tem umas habilidades na divisão do ecrã em dois e em três planos de imagem que nalguns momentos resulta, se por bom resultado entendermos a tentativa de nos envolver o mais possível na experiência do que foi ter lá estado. Dizem que a 15 de Março de 2013 acorreu meio milhão de pessoas às ruas de Lisboa. Isto foram os números do Woodstock. 500 mil homens e mulheres de boa vontade reunidos num único sítio. Passei a duvidar dos números daquela manifestação. Em relação à boa vontade de quem foi para as ruas, tem algo a ver.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
# 379
A informação de que foi gravado num estúdio chamado Cacophony só pode ser piada de bom gosto. Percebe-se logo o quão extraordinário é, e seguirá pela mesma bitola faixa após faixa: os arranjos a projectarem-no nos céus e outros espaços abertos, ao passo que a voz o prende firme onde está, aonde a música acontece. 40 minutos.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
# 377
Um concerto de June Tabor representa um só risco, como se compreende, comum ao acto de escutar os discos dela. O de nos deixarmos aprisionar pela idealização de narrativas amorosas "que correram mal", tomando a nossa vida sentimental por reflexo dessa condição, que a voz de June Tabor deixa suspensa num firmamento sublime. Quando a vida é tão menos bela e se encontra em permanente renovação.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
# 376

The Osterman Weekend foi o último filme realizado por Sam Peckinpah. É de 1983. Tem um plot confuso que tende a desviar a atenção do essencial: a luta entre a boa imagem e a má imagem. Do lado dos bons, a imagem cinematográfica que Peckinpah cultivou até ao fim com esmero e ferocidade raros. Pelos maus, entenda-se a televisão e os sistemas de video-vigilância. Parece também um filme de John Carpenter, no sentido em que é muito mais do que aquilo que se vê, e abre-se a uma leitura especulativa. O facto da maior parte da acção estar concentrada na casa da família Osterman, no decurso de um fim-de-semana que começa festivo e termina sangrento, também faz lembrar Carpenter. O cast é uma mistura de vários tipos físicos e tipos de actor. Nada há de comum entre John Hurt e Rutger Hauer. E The Osterman Weekend ao expor a manipulação a que estamos sujeitos por quem nos governa, ou pela televisão entendida enquanto elemento produtor de consumo e esquecimento, revela-se um filme de inesperada actualidade. Mas o mais decisivo é uma frase dita no filme que descreve o que se está a passar como uma "snuff soap opera". Traduzido para os dias actuais, um reality show onde morrem pessoas. É só o que falta.
# 375

"A Sida, o Amor, e os Cães". Tal como na tradução do título de uma comédia com Billy Crystal, que do original City Slickers fez "A Vida, o Amor, e as Vacas". O riso podia ser resposta de Joaquim Pinto ao desespero motivado pela sua condição clínica (a serpositiviodade), não fosse ele ter-se agarrado à vida, à sua história, à cultura no mais abrangente sentido, na edificação desta arqueologia de tudo que é E Agora? Lembra-me. Joaquim Pinto fez um filme de combate mais que de resistência. Um filme que quer ganhar o presente de cada instante, um testemunho de vida superior à maior adversidade, uma afirmação permanente do sujeito do seu autor, um cinediário ao mesmo tempo concreto e subjectivo, geográfico e mental. Tudo ligado por uma corrente de amor cujo núcleo é constituído pelo seu companheiro e pelos vários cães que recolheram juntos, que ramifica e se estende para as muitas áreas de interesse de Joaquim Pinto, e para as afinidades que o cinema ajudou a criar. E Agora? Lembra-me vai do muito micro ao muito macro, do lugar aqui e agora ao mundo de há milhares de anos. O homem contém multitudes. Qualquer homem, qualquer. Mas é preciso ser-se homem de cultura (um artista) para saber organizá-las de maneira a que a experiência individual ecoe no globo em que vivemos e nas vidas de nós todos.
(no Festival Queer)
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
# 372
Um dia que dê de caras com Geoff Dyer hei-de perguntar que música especificamente ele escutava nas suas diletâncias pela Luisiana acompanhado do amigo Donnelly.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
# 366
Anthony Soprano e Chris Moltisanti estão de regresso de Nova Iorque onde procuravam um acordo com o Boss local sobre lucros da remoção e despejo de material tóxico. Chris conduz de forma inquieta (é da cocaína), o carro onde vão embate de raspão num veículo que se desloca em sentido contrário, despista-se, capota sucessivas vezes, e Chris que não levava o cinto posto fica em muito mau estado. Tony não chama logo o 911 (urgências), tapa-lhe o nariz e o outro morre por falta de oxigénio e também sufocado no próprio sangue. A monstruosidade de Anthony Soprano fica à nossa vista como nunca até aqui. A partir desse momento acreditamos que ele pode matar qualquer (qualquer!) pessoa se isso lhe trouxer alguma vantagem. O modo como procura distrair-se da culpa que pode transparecer para outros tornará a constatação mais óbvia ainda.
Cansado da hipocrisia que observa nos funerais (diz ele), junto com a necessidade cada vez maior de se evadir das contingências ao seu redor, resolve partir uns dias para Las Vegas. Aí encontra uma ex-stripper conhecida de Chris Moltisanti com quem se vai envolver e com quem toma pela primeira vez peiote (pequeno cacto de efeitos psicadélicos). Os dois entram no Casino e Tony começa a ganhar de forma imparável. Têm estampado nos rostos aquela estupefacção característica de quem está a alucinar. Toda a cena acentua o absurdo do que vemos. O absurdo termina ao nascer do Sol onde Tony experimenta uma epifania mantida em segredo para nós.
Francamente, depois deste episódio, que com ironia recebeu por título o nome das duas raparigas que ocupavam o carro onde embateram Chris e Tony (Kennedy e Heidi), um episódio também marcado por cenas de violência gratuita envolvendo as novas amizades do filho de Anthony Soprano (A.J.), e faltando apenas três episódios para o final da série, o que prevejo é que nos encaminhemos para uma espécie de Apocalipse. Os Sopranos contam uma história de violência que perdeu qualquer possibilidade de redenção. A confirmar nas próximas horas.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
# 365
Achei esta imagem logo extraordinária mesmo desconhecendo os contornos macabros da história por detrás dela. Uma criança a quem arrancaram os olhos até às córneas com o intuito de os venderem a um qualquer traficante de órgãos. Não é concebível imaginar o sofrimento a que Guo Bin foi submetido, nem a tristeza que sobre ele se abaterá ao tomar consciência de que nunca mais poderá ver. Mas foi possível para mim olhar a imagem isolada do seu contexto: modo da imagem que "é" imagem se distinguir da vulgaridade de todas as outras. Uma imagem que retrata a experiência inocente do amor, que se traduz somente no prazer da proximidade de dois corpos que se reconhecem. Notem as mãos e os braços de Guo Bin. O urso, em fundo, transforma o resto numa quase alegoria da infância (perdida). Imagem creditada à AFP.
Adenda: alguém chamou a atenção para as notas nas mãos da mulher, pormenor que me tinha passado completamente ao lado.
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