quarta-feira, 16 de outubro de 2013

# 397
































Quer no filme A Rainha (Stephen Frears, 2006) como na mini-série Parade's End (HBO, 2012), é-nos dado a observar e sentir a alma conservadora através dos dois protagonistas: Isabel II de Inglaterra e o aristocrata Christopher Tietjens, interpretados por Helen Mirren e Benedict Cumberbatch. Não encontrei as imagens certas para ilustrar a ideia que passo a exemplificar. No meu entender, nada define a alma conservadora como o amor à terra, mais no sentido de mundo natural que de pátria, e acima de tudo no sentido em que se trata de um mundo que se perpetuaria na sua lógica não fosse a intervenção do homem sobre ele, tantas vezes abusiva. A dada altura, no filme de Frears, a rainha aproxima-se de um veado vermelho abatido em caçada, numa atitude respeitosa, quase compungida, para com o animal (no que este representa) cuja pose majestática tinhamos observado antes, em total harmonia com os espaços em volta. Também Tietjens, que é um indivíduo desprovido de vaidade, quando não consegue evitar o desastre com a charrete onde passeia com Valentine Wannop, de que resulta o ferimento da égua da família da rapariga, abraçará mais tarde o animal pedindo-lhe desculpa pelo sucedido, pela fraqueza da sua alma entorpecida pelo interesse que Valentine lhe despertou, e que conduziu ao acidentado devaneio de que o animal foi o mais prejudicado. Pode parecer fútil aos olhos mundanos esta ligação da alma conservadora a aspectos remotos à nossa vida moderna e citadina. A mim comove-me, imensamente.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

# 396



E tu, tens pedalada para Mountain?

# 395



















«There were numerous tributes from family and friends including one Jerry Jernigan, a prisoner serving 99 years at the Tennessee State Penitentiary where he met Johnny in 1974. Jerry was an aspiring songwriter and gave Johnny a tape of one of his songs, 'It Ain't No Big Thing', which led to a songwriter's contract with the House of Cash.
Jernigan told of an occasion when, feeling particularly lonely and depressed, he phoned Johnny, asking that he simply be allowed to hear his voice. Johnny and June talked to him for 15 minutes, the maximum allowed under prison rules. "Knowing Johnny Cash has given me self-respect, encouraged me to upgrade my morals, and most of all stand up like a man and be counted."»

# 394
















Vinte anos passados continua a ser o filme que prefiro de André Téchiné. A diferença de duas décadas produz os seus efeitos. É bem mais doloroso ver Ma Saison Préferée/ A minha Estação Preferida (1993) quando se deu o salto para a geração seguinte. Este é um filme sobre o mais crucial dos temas: o curso da vida, da juventude à idade adulta, e desta à velhice que para muitos de nós será "o começo do massacre". Há indícios do massacre antes de se chegar a velho, quando percebemos a pessoa em que nos tornámos e que a única hipótese de redenção passa por aceitar quem somos. O curso da vida apresentado por Téchiné está longe de ser tranquilo, os conflitos sucedem-se com uma frieza quase bergmaniana. Bergmaniano é também o falso flashback que coloca Emilie (Catherine Deneuve) a falar com os pais, corpo de adulta no tempo da criança, a dizer-lhes que está muito bem sozinha sem ter um irmão. O irmão nasceu e veio a chamar-se Antoine (Daniel Auteuil). A relação dos dois é marcada por ambiguidades que levaram a que não podendo ficar muito tempo juntos, a cada reencontro o desejo de não-separação fosse igualmente muito forte. E depois existe essa personagem, fortíssima, que é a mãe de Antoine e Emilie, Berthe, interpretada por Marthe Villalonga. Não há lugar à visão beatífica da mulher do campo, trocada por uma figura de personalidade bulldozer que diz o que pensa não olhando a quem possa magoar. A Minha Estação Preferida trabalha o realismo até à alma e até ao osso. Obra-prima para rever em qualquer idade.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

# 393

# 392


Joni Mitchell no iPhoneogram de um amigo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

# 391





























Dead Man (1995) é um filme falado, tem uma cadência de diálogos como as de grande parte dos filmes a que assistimos, mas é como se Jim Jarmusch se propusesse o desafio, a cada plano, de fazer um mudo. A alma do cinema mudo, a sua expressividade interior feita imagem, está toda em Dead Man, bem distante de exercícios copistas, que se limitam a reproduzir o formato, como o caso recente e multipremiado de O Artista (2011). Johnny Depp é dos raros actores hoje em dia que podiam figurar num filme de D.W. Griffith (1875-1948). Compare-se as imagens de Dead Man e de Broken Blossoms (o que foi possível encontrar desta obra de 1919). E preste-se finalmente atenção às palavras de William Blake, contabilista que se descobre poeta ao dar de caras com o índio Nobody: "Some are born to sweet delight/ Some are born to endless night". Como se apenas com o preto-e-branco da fotografia, que marca igualmente a primeira metade da história do cinema, fosse possível filmar a noite interminável que é a existência de William Blake. Primeiramente um morto-vivo, para no final de Dead Man se tornar num vivo-morto.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

# 390


"Está oficialmente aberta a época de gatos debaixo dos edredões."

# 389





Quando a bigodaça se repete é sempre como farsa.

# 388





















"Ausónio sabia compor versos e ensinar Gramática, e como honesto retor deixava em paz a enigmática trama do universo; dificilmente se haverá perguntado como teriam sido necessárias tantas longas marchas além dos Alpes, uma guerra e a arte militar romana para que ele simplesmente pudesse ser feliz com uma mulher. A mão que nos agrada apertar e beijar comove-nos também por vir de tão longe e porque na forma e na sedução dos seus dedos cooperaram humildemente o Big Bang, o Quaternário, as migrações dos Hunos das estepes da Ásia."

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

# 387






A cicatriz posterior. Só uma ideia.

# 386




















Foi coerente até ao final a filmografia de Sydney Pollack: dos ainda clássicos, um dos românticos. O tema central da sua obra foi invariavelmente o encontro de um homem com uma mulher, tantas vezes concluído numa despedida. Digo tantas vezes com a convicção de que foi em todas as vezes. Pollack levou fora do cinema a mais comum das vidas: em tempos actuais menos comum. Foi casado e pai de família. O cinema permitia-lhe projectar-se nas existências dos seus protagonistas: homens e mulheres. Nos planos finais de A Intérprete (2005), obra que oscila entre a sobriedade fora de moda e a tensão dramática modelada em best-sellers, resultando num tom de muito apreciáveis meias-tintas, registo o último encontro de Silvia (Nicole) e Tobin (Sean). Mais uma despedida. Ela será deportada para África e ele passará a viver com a África dela no pensamento. O casaco de bombazine de Tobin Keller cria a identificação com os heróis do cinema liberal da década de 70 (Redford primeiro entre iguais). África em sonhos de cinema é também Sydney Pollack em estado puro. E em puro estado se foi, guardado nos pensamentos de quem continuará a despedir-se dele através do filmes.

# 385



















Vi recentemente Woodstock (1970), filme de Michael Wadleigh sobre um dos acontecimentos culturais, políticos e sociais de maior relevo no século XX. Não é extraordinário enquanto filme mas é extraordinário como documento. Tem umas habilidades na divisão do ecrã em dois e em três planos de imagem que nalguns momentos resulta, se por bom resultado entendermos a tentativa de nos envolver o mais possível na experiência do que foi ter lá estado. Dizem que a 15 de Março de 2013 acorreu meio milhão de pessoas às ruas de Lisboa. Isto foram os números do Woodstock. 500 mil homens e mulheres de boa vontade reunidos num único sítio. Passei a duvidar dos números daquela manifestação. Em relação à boa vontade de quem foi para as ruas, tem algo a ver.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

# 384




O terceiro homem.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

# 383


Este é do Billy.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

# 382






































O passado tão radioso.

# 381

Contemporâneos.













segunda-feira, 30 de setembro de 2013

# 380

Novidades.














sexta-feira, 27 de setembro de 2013

# 379


























A informação de que foi gravado num estúdio chamado Cacophony só pode ser piada de bom gosto. Percebe-se logo o quão extraordinário é, e seguirá pela mesma bitola faixa após faixa: os arranjos a projectarem-no nos céus e outros espaços abertos, ao passo que a voz o prende firme onde está, aonde a música acontece. 40 minutos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

# 378



Existem montes de versões e depois essa raridade chamada Versão que é quase uma canção nova.

# 377

Um concerto de June Tabor representa um só risco, como se compreende, comum ao acto de escutar os discos dela. O de nos deixarmos aprisionar pela idealização de narrativas amorosas "que correram mal", tomando a nossa vida sentimental por reflexo dessa condição, que a voz de June Tabor deixa suspensa num firmamento sublime. Quando a vida é tão menos bela e se encontra em permanente renovação.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

# 376






































The Osterman Weekend foi o último filme realizado por Sam Peckinpah. É de 1983. Tem um plot confuso que tende a desviar a atenção do essencial: a luta entre a boa imagem e a má imagem. Do lado dos bons, a imagem cinematográfica que Peckinpah cultivou até ao fim com esmero e ferocidade raros. Pelos maus, entenda-se a televisão e os sistemas de video-vigilância. Parece também um filme de John Carpenter, no sentido em que é muito mais do que aquilo que se vê, e abre-se a uma leitura especulativa. O facto da maior parte da acção estar concentrada na casa da família Osterman, no decurso de um fim-de-semana que começa festivo e termina sangrento, também faz lembrar Carpenter. O cast é uma mistura de vários tipos físicos e tipos de actor. Nada há de comum entre John Hurt e Rutger Hauer. E The Osterman Weekend ao expor a manipulação a que estamos sujeitos por quem nos governa, ou pela televisão entendida enquanto elemento produtor de consumo e esquecimento, revela-se um filme de inesperada actualidade. Mas o mais decisivo é uma frase dita no filme que descreve o que se está a passar como uma "snuff soap opera". Traduzido para os dias actuais, um reality show onde morrem pessoas. É só o que falta.

# 375




















"A Sida, o Amor, e os Cães". Tal como na tradução do título de uma comédia com Billy Crystal, que do original City Slickers fez "A Vida, o Amor, e as Vacas". O riso podia ser resposta de Joaquim Pinto ao desespero motivado pela sua condição clínica (a serpositiviodade), não fosse ele ter-se agarrado à vida, à sua história, à cultura no mais abrangente sentido, na edificação desta arqueologia de tudo que é E Agora? Lembra-me. Joaquim Pinto fez um filme de combate mais que de resistência. Um filme que quer ganhar o presente de cada instante, um testemunho de vida superior à maior adversidade, uma afirmação permanente do sujeito do seu autor, um cinediário ao mesmo tempo concreto e subjectivo, geográfico e mental. Tudo ligado por uma corrente de amor cujo núcleo é constituído pelo seu companheiro e pelos vários cães que recolheram juntos, que ramifica e se estende para as muitas áreas de interesse de Joaquim Pinto, e para as afinidades que o cinema ajudou a criar. E Agora? Lembra-me vai do muito micro ao muito macro, do lugar aqui e agora ao mundo de há milhares de anos. O homem contém multitudes. Qualquer homem, qualquer. Mas é preciso ser-se homem de cultura (um artista) para saber organizá-las de maneira a que a experiência individual ecoe no globo em que vivemos e nas vidas de nós todos.




















(no Festival Queer)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

terça-feira, 17 de setembro de 2013

# 372



Um dia que dê de caras com Geoff Dyer hei-de perguntar que música especificamente ele escutava nas suas diletâncias pela Luisiana acompanhado do amigo Donnelly.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

# 371















O cinema de Woody Allen continua enjaulado numa vulgaridade que se limita a reproduzir o mundo sem qualidades.

# 370

Assim não dá, Abbas Kiarostami!

(a Cinemateca mostrou em antestreia esta comédia de equívocos com fundo moral para entreter velhinhos)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

# 369






Só pode ser coincidência.

# 368




Tocar a perfeição.

# 367



"It's all a big nothing." (Livia Soprano, temporada 2, episódio 7)


O final de Os Sopranos. Apocalipse nada.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

# 366




















Anthony Soprano e Chris Moltisanti estão de regresso de Nova Iorque onde procuravam um acordo com o Boss local sobre lucros da remoção e despejo de material tóxico. Chris conduz de forma inquieta (é da cocaína), o carro onde vão embate de raspão num veículo que se desloca em sentido contrário, despista-se, capota sucessivas vezes, e Chris que não levava o cinto posto fica em muito mau estado. Tony não chama logo o 911 (urgências), tapa-lhe o nariz e o outro morre por falta de oxigénio e também sufocado no próprio sangue. A monstruosidade de Anthony Soprano fica à nossa vista como nunca até aqui. A partir desse momento acreditamos que ele pode matar qualquer (qualquer!) pessoa se isso lhe trouxer alguma vantagem. O modo como procura distrair-se da culpa que pode transparecer para outros tornará a constatação mais óbvia ainda.
Cansado da hipocrisia que observa nos funerais (diz ele), junto com a necessidade cada vez maior de se evadir das contingências ao seu redor, resolve partir uns dias para Las Vegas. Aí encontra uma ex-stripper conhecida de Chris Moltisanti com quem se vai envolver e com quem toma pela primeira vez peiote (pequeno cacto de efeitos psicadélicos). Os dois entram no Casino e Tony começa a ganhar de forma imparável. Têm estampado nos rostos aquela estupefacção característica de quem está a alucinar. Toda a cena acentua o absurdo do que vemos. O absurdo termina ao nascer do Sol onde Tony experimenta uma epifania mantida em segredo para nós.
Francamente, depois deste episódio, que com ironia recebeu por título o nome das duas raparigas que ocupavam o carro onde embateram Chris e Tony (Kennedy e Heidi), um episódio também marcado por cenas de violência gratuita envolvendo as novas amizades do filho de Anthony Soprano (A.J.), e faltando apenas três episódios para o final da série, o que prevejo é que nos encaminhemos para uma espécie de Apocalipse. Os Sopranos contam uma história de violência que perdeu qualquer possibilidade de redenção. A confirmar nas próximas horas.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

# 365





















Achei esta imagem logo extraordinária mesmo desconhecendo os contornos macabros da história por detrás dela. Uma criança a quem arrancaram os olhos até às córneas com o intuito de os venderem a um qualquer traficante de órgãos. Não é concebível imaginar o sofrimento a que Guo Bin foi submetido, nem a tristeza que sobre ele se abaterá ao tomar consciência de que nunca mais poderá ver. Mas foi possível para mim olhar a imagem isolada do seu contexto: modo da imagem que "é" imagem se distinguir da vulgaridade de todas as outras. Uma imagem que retrata a experiência inocente do amor, que se traduz somente no prazer da proximidade de dois corpos que se reconhecem. Notem as mãos e os braços de Guo Bin. O urso, em fundo, transforma o resto numa quase alegoria da infância (perdida). Imagem creditada à AFP.

Adenda: alguém chamou a atenção para as notas nas mãos da mulher, pormenor que me tinha passado completamente ao lado.

# 364


Chris Taylor


Ontem tivemos uma grande notícia.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

# 363





A grande arte é a que ultrapassa as limitações do mundo físico.
Este filme permanece insuperável.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

# 362

























Definição do marginal ameno.

# 361

# 360





# 359




O trabalho do actor não tinha mistérios para Sydney Pollack. A tarefa consiste, para alguns, na desmistificação desse mesmo trabalho, de que resulta a esplendorosa evidência do que está no guião: palavras e acções.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

# 358






Homem a dias, em dias que são pastiches uns dos outros.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

# 357



«The last time I saw Richard was Detroit in '68. And he told me all romantics meet the same fate someday. Cynical and drunk and boring someone in some dark café. You laugh he said you think you're immune. Go look at your eyes they're full of moon. You like roses and kisses and pretty men to tell you all those pretty lies pretty lies. When you gonna realize they're only pretty lies. Only pretty lies just pretty lies.
He put a quarter in the Wurlitzer and he pushed three buttons and the thing began to whirr and a bar maid came by in fishnet stockings and a bow tie. And she said "Drink up now it's getting' on time to close". "Richard, you haven't really changed" I said. It's just that now you're romanticizing some pain that's in your head. You got tombs in your eyes but the songs you punched are dreaming. Listen, they sing of love so sweet, love so sweet. When you gonna get yourself back on your feet? Oh and love can be so sweet love so sweet.
Richard got married to a figure skater and he bought her a dishwasher and a coffee percolator. And he drinks at home now most nights with the TV on and all the house lights left up bright. I'm gonna blow this damn candle out. I don't want nobody comin' over to my table. I got nothing to talk to anybody about. All good dreamers pass this way some day. Hidin' behind bottles in dark cafes dark cafes. Only a dark cocoon before I get my gorgeous wings and fly away. Only a phase these dark café days.»

# 356

DA MONARQUIA: Malparado, o novo blogue do Pedro Mexia.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

# 355


Eis-nos cara a cara com o coração ingrato de Os Sopranos. Começo da 6ª e última temporada. Tony recebe um disparo inadvertido no estômago e está entre a vida e a morte. Em sonhos, ou em delírios, imagina-se com o mesmo nome numa existência alternativa, confundido com a identidade de alguém que terá trocado de pasta e carteira com ele: um tal de Kevin Finnerty. No mundo dos despertos conjetura-se sobre se Tony escapará desta. Há quem se distraia com a ideia de o poder vir a suceder (Sil e Vito). E é isto, o coração ingrato de uma das melhores séries de todos os tempos. "Proust à bolonhesa" confeccionado em New Jersey. Quando vários querem "ser" Tony, e o próprio espectador cria forte identificação com o protagonista, Tony namora no inconsciente mais profundo com a possibilidade de ser um outro homem. "Ninguém diga que está bem", escreveu um amigo avisado, que não encontro e que não sabe de mim há demasiado tempo. Felizmente existe Os Sopranos para colocar em perspectiva as coisas importantes. Nada sabemos de facto das vidas uns dos outros, ou talvez mais facilmente nos reconciliássemos com a que temos. Com a pessoa em que nos tornámos.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

# 354




Música para investir pelos pés da muilher em toda a doçura deles e alguma aspereza.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

# 353



Quod erat demonstrandum.

# 352





Homenagear os pais: o biológico (Richard) e o musical (Donald Fagen). Que tipo impecável.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

# 351

Julianna Barwick ao natural, por Shawn Brackbill.

# 350



Burial me deep in love.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

# 349






Voltei a ouvir os Massive Attack, que deixara de seguir depois de Mezzanine (1998). Escuto sem método - por acaso comecei pelo último disco, Heligoland - e com graus distintos de atenção, consoante o momento, os cinco álbuns deste projecto: como quem se serve da música para acompanhar qualquer tarefa, e noutras vezes tarefa nenhuma. Escolho a designação projecto porque vejo-os como um laboratório com grande rotação de colaboradores que funciona menos como banda em sentido canónico e mais como algo que existe para corresponder a uma determinada marca sonora.
Primeira interpretação, feita a partir da cronologia de edições. Os Massive Attack só gravaram quando bem entenderam que o deviam fazer, e isso é coisa rara. Blue Lines (1991) merece o estatuto de clássico que tem desde há longo tempo, contribuiu para a definição de um género musical novo, é simultaneamente complexo e acessível, música quente e vibrante que surgia num ponto de surpreendente maturidade. Os Massive Attack entraram pela porta dos maiores e ousaram ser diferentes e esperar três anos até nos darem novo disco, Protection (1994), talvez o registo dos Massive onde os convidados mais tenham contribuído na criação de uma identidade forte, sendo também o aspecto mais relevante da sofisticação e elevada qualidade do resultado último: Protection será sempre associado à voz de Tracy Thorn e ao piano de Craig Armstrong. Dá, então como hoje, a ideia de que os Massive Attack tinham o meio musical aos pés.
Nova "pausa", agora de quatro anos, até à chegada de Mezzanine, outra obra-prima e em enorme contraste com Blue Lines. O enfoque no som negro e claustrofóbico, acordes de guitarra saturados e distendidos, um ambiente de fim de mundo, no final de um século. A voz angelical de Elizabeth Fraser a conduzir-nos pelos contornos apocalípticos desta impressionante realização sonora. 100th Wimdow (2003) teve a árdua tarefa de suceder a Mezzanine. Muito, muito difícil tarefa. Produção atribulada, avanços e recuos, e o que ficou de todo o processo foi uma variação sobre o disco anterior atenuada no negrume, talvez demasiado estendida na duração dos temas, que se reflecte na duração total. A matéria musical é ainda bastante interessante, não houve foi arte para moldá-la de modo a repetir os feitos anteriores. É possível que seja o disco dos Massive Attack mais trabalhado em estúdio, mas fica a impressão de não o ter sido suficientemente. Tem no entanto bons alicerces instrumentais e escuta-se com prazer em dias de maior bonomia.
Heligoland chegou em 2010 e deixa uma sensação de que os Massive Attack terão procurado o back to basics. Não mais densos mantos electrónicos, trocados por canções de recorte definido. Perde para Blue Lines porque todos perdem, até mesmo eventualmente Mezzanine. Mas é disco cheio de saber fazer e incutir carisma nas batidas e nas interpretações. Os Massive Attack poderão nunca mais voltar a surpreende-nos como o fizeram nos anos 90 do século XX, mas esgotados é que eles não estão. O comboio prossegue viagem, aleatoriamente, com paragem em todas as estações.

# 348



Oho. Oh, boy.

(real. Toby Dye)

# 347

"A felicidade, para ele, não existe por adição: de objectos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade."

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

# 346

Sobre o mesmo "medo da insignificância", e 38 anos antes...

# 345



Uma história do cinema no masculino. Machos beta a verem filmes sobre machos alfa, realizados por outros machos alfa.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

# 342


Quando nos pomos a escutar um disco que toca géneros consanguíneos tais como a soul, o funk, o R&B, e o hip hop, sem que nenhum prevaleça sobre os demais, é mais justo classificá-lo de pop, até porque os recursos de produção apontam no sentido de uma igual e saudável dispersão. Isto é música para ter groove, para proporcionar escape físico e escape mental, que apesar do tom cavalheiresco em que Mayer Hawthorne nunca facilita, foca igualmente aspectos universais dos equívocos e derrotas dos que se prestam a jogar o jogo do amor. Mayer Hawthorne diz de Where Does this Door Go que pela primeira vez tinha material de sobra para completar até um segundo disco, o que evitou as anteriores angústias em cima da hora que obrigavam a forçar um pouco mais a inspiração para que os álbuns não ficassem abaixo das dez canções, mínimo que a convenção manda. O novo CD, que se fixa numa duração acima dos 50 minutos, ressente-se da abundância. De acordo com o gosto meu particular, agrupo-o em três blocos de canções que respeitam o alinhamento final. As primeiras quatro são bastante boas e se Where Does this Door Go fosse todo assim estávamos bem servidos. Mas Mayer supera-se a partir de Wine Glass Woman, primeira de três colaborações com Pharrell Williams (The Neptunes, N.E.R.D.), logo seguida por Her Favorite Song, que é a maravilha camaleónica que todos reconhecemos, e o programa segue em alta nota até Corsican Rosé, com nova prestação de Williams (Reach Out Richard) e também do rapper Kendrick Lamar (Crime). Ao passar da décima canção, que noutras circunstâncias encerraria um disco de Hawthorne, o material mais não faz que introduzir variações menos brilhantes para o que se ouviu antes. Assim, em modo bónus não assumido pelo artista, que belisca a qualidade geral, encaminhamo-nos para o final de um registo que denota ainda a influência que o próprio Mayer Hawthorne reconhece e promove da parte da banda bissexta de Donald Fagen e Walter Becker, os Steely Dan. Música sofisticada e com groove que nunca está abaixo do espumante e algumas vezes merece ser comparada a champanhe. Como li nalgum lado, Mayer Hawthorne de DJ fez-se cantor, e de melómano tornou-se músico e produtor. Não admira que ele também diga que este é o seu primeiro disco em que os temas estão totalmente de acordo com a visão original. Melhor do que qualquer outro, ele sabe de onde veio, o que faz, e do que fala.

# 341



Especialmente aos domingos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

terça-feira, 20 de agosto de 2013

# 337



Chega um momento na vida de todas as pessoas em que à falta de alternativas racionais é preciso rezar. Nessas alturas há os que acendem uma vela e os que colocam a tocar uma música de Max Richter. O efeito é o mesmo. Resultados só os que Deus quiser.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

# 336



Amor é... gostar todos os dias da mesma.

# 335

No mundo mais livre, The Outdoor Co-ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society.
Se virem por lá estas girls, dêem um abraço da minha parte.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

# 334


Numa idade em que desejava ver sempre mais, surgiu este filme que deixando-me espreitar de todos os lados me ensinou que podemos tudo ver se existir pudor no olhar. Esse pudor estava é claro primeiro no próprio filme, do realizador a quem é atrbuída a frase em epígrafe e magnífica, que partilha das qualidades interiores (e anteriores) ao filme. Um olhar com pudor não se dirige àquilo para que se olha, ou caso o faça é também um erro no destino. O destinatário só podem ser esses mesmos solitários, porque o olhar na verdade nunca os deixa. Desejosos de união que a imagem preenche enquanto fantasma. Onde uns poderão mirar o passado, outros o futuro, mas nunca o presente, pois que o presente se apreende com os sentidos confiáveis.

# 333

"Na prática todos gostaríamos de perceber melhor que tipo de sabedoria estamos a retirar da liberdade sexual que nos é oferecida como uma das grandes conquistas civilizacionais do nosso tempo."

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

# 332



O reconhecimento de Michael Mann enquanto autor de cinema, com uma linguagem e um universo próprios, ocorreu de forma mais consensual em 2006 através de Miami Vice, o seu primeiro filme elogiado quer pela crítica americana, quer pela europeia, e foi com surpresa que nessa altura li notas de entusiasmo de alguns críticos portugueses que antes torciam o sobrolho ao estilo de Mann. Pela minha parte continuo a considerar que Heat (1995) é o filme onde Michael Mann surge no controlo absoluto dos elementos fílmicos (guião, música/ som, e imagem) que se ligam para criar um todo poético onde o universo da criminalidade é retratado pelo contraste entre as muito virtuosas sequências de acção e outras cenas onde a atmosfera isola o indivíduo e antecipa o seu destino trágico. Heat continua a ser em minha opinião a obra-prima deste realizador, e foi com agrado que reconheci a utilização não creditada da partitura de Elliot Goldenthal em dois momentos do primeiro episódio de Luck, série da HBO que Michael Mann produziu, tendo igualmente dirigido o episódio piloto. Um episódio de autor: que assina com imagens e também com música.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

# 331



Um grande homem uma vez disse que quando matamos alguém tiramos tudo o que essa pessoa foi e o que poderia ter sido. Werner Herzog não passa ao lado do aspecto mais trágico de vidas que de diferentes maneiras foram interrompidas. Por se tratar de um grande realizador transcende o aspecto mais doloroso do que filma com exemplos do perdão. Este é também um filme sobre os limites que o acto de perdoar conquista ao que parecia imperdoável.

# 330



Tomo nota para no caso de esquecer poder vir aqui recuperar o raciocício. Há algo que se altera na passagem da terceira para a quarta temporada de Os Sopranos que é mais sensível do que qualquer alteração que tenha vindo antes. É como se a psicologia das personagens passasse a ditar claramente aquilo que acontece, ao contrário do que sucedia quando a acção ajudava à caracterização das muitas figuras. Assim Os Sopranos torna-se menos uma série de acção e mais uma série reflexiva. Isto confunde-se um pouco com a literatura e pode mesmo ter sido essa a intenção. O movimento dirigiu-se do exterior para a interioridade, o que talvez explique o ritmo diferente, mais pausado a partir daqui, com mais momentos de suspensão. Não faço ideia se esta dinâmica irá continuar, uma vez que tamanha interioridade poderia afastar os espectadores da série. Mas talvez, três épocas passadas, a audiência de Os Soprados estivesse de tal modo circunscrita, no seu elevado número, que a fidelidade não seria posta em causa pela experimentação. Entre a difusão das terceira e quarta temporadas aconteceu o 11 de Setembro, mas até ver isso não foi incorporado nos eventos. Pode é ter passado directamente para o espírito da ficção. A imagem promocional é elucidativa. Estas personagens não estão umas com as outras, mas consigo próprias. Por outro lado aquilo que observamos não parece ter correspondência no luto de uma nação, a não ser no luto de cada um pela sua condição solitária, por sermos o principal obstáculo ao fim dessa condição. Para que é que cada um escreve, filma ou faz outras coisas? Para chegar a outros ou para que outros venham até si?

# 329




Para quem se questione sobre se a vida tem sentido. O sentido de existir talvez se resuma nisto.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

# 328






































* bling ring ring ring (no answer)

# 327

























Um grande filme de Sofia Coppola, aquele onde é maior a correspondência entre o trabalho formal que lhe reconhecemos e o assunto de que se ocupa. É um filme de ruptura de tão fenomenal com o nosso imaginário em relação à juventude, como o foi Elephant de Gus Van Sant, e a larga distância no seu real interesse de Spring Breakers de Harmony Korine, com quem tem pontos de contacto. Coppola capta o hedonismo e a irrealidade que transfere para a experiência sensorial que é ver The Bling Ring, e coloca num mesmo plano os adolescentes e as celebridades por eles idolatradas. Aliás as vidas dos jovens do filme de Sofia Coppola mimetizam no sentido sensacionalista as daqueles cujas casas assaltam com o fascínio de aceder a mansões que são museus erigidos pelos proprietários num culto de personalidade que passa exclusivamente pela posse extravagante de objectos de moda, o dinheiro arrumado em qualquer sítio, e imagens suas espalhadas por todo o lado. The Bling Ring é um filme sobre o fenómeno da celebridade instantânea e consegue fazer-nos perceber a fantasia que toma conta dos que se projectam nas vidas "fantásticas" dos famosos. E, muito importante, sem moralizar. Uma fantasia perpetuada por imagens que substituem a realidade até que esta se torne indistinta das imagens que a canibalizaram. Um grande filme de Sofia Coppola, sem dúvida nenhuma.    

# 326



Com Os Sopranos e sempre a bombar.

# 325

Appolonide, Memórias de um Bordel (Souvenirs de la Maison Close, 2011) presta-se a várias leituras, inclusive as que como no caso da publicação Le Parisien vejam nele "um grande filme feminista". Sou da opinião que Bertrand Bonello quis fazer um filme de fantasmas, algo que evocasse em particular o ambiente vivido num bordel de Paris, na passagem do século XIX para o seguinte, quebrando o aspecto realista da cuidada reconstituição com a música, instrumental ou cantada, clássica ou contemporânea, que existe para reforçar a atmosfera do filme, como se de um sonho se tratasse. O filme começa precisamente com um sonho, contado por uma das prostitutas, Madeleine, ao seu cliente regular. O nome Madeleine não é fruto do acaso, pois não arrisco muito ao dizer também que Marcel Proust é a maior referência do filme de Bonello. Madeleine funciona duplamente, quer como propulsor da evocação que o filme faz, quer como observador da acção, colocado a uma certa distância a partir do momento em que fica desfigurada e deixa de poder trabalhar como dantes. Madeleine é o elemento que liga os diferentes quadros, de um luxo decadentista, quando se trata de cenas em interior, ou de um pós-impressionismo renoiriano, como no episódio do piquenique das raparigas do lupanar parisiense que depois se banham nuas no rio. Bonello decide quebrar bruscamente a unidade temporal quando nos mostra no final as ruas de Paris com as profissionais que se oferecem a quem passa de carro. Despertado do sonho, este filme que nunca se define em relação ao que mostra, a não ser no plano estético, abre-se para o plano do real, fora da casa, fora do sonho, fora da imaginação.  

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