quarta-feira, 11 de setembro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
# 359
O trabalho do actor não tinha mistérios para Sydney Pollack. A tarefa consiste, para alguns, na desmistificação desse mesmo trabalho, de que resulta a esplendorosa evidência do que está no guião: palavras e acções.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
# 357
«The last time I saw Richard was Detroit in '68. And he told me all romantics meet the same fate someday. Cynical and drunk and boring someone in some dark café. You laugh he said you think you're immune. Go look at your eyes they're full of moon. You like roses and kisses and pretty men to tell you all those pretty lies pretty lies. When you gonna realize they're only pretty lies. Only pretty lies just pretty lies.
He put a quarter in the Wurlitzer and he pushed three buttons and the thing began to whirr and a bar maid came by in fishnet stockings and a bow tie. And she said "Drink up now it's getting' on time to close". "Richard, you haven't really changed" I said. It's just that now you're romanticizing some pain that's in your head. You got tombs in your eyes but the songs you punched are dreaming. Listen, they sing of love so sweet, love so sweet. When you gonna get yourself back on your feet? Oh and love can be so sweet love so sweet.
Richard got married to a figure skater and he bought her a dishwasher and a coffee percolator. And he drinks at home now most nights with the TV on and all the house lights left up bright. I'm gonna blow this damn candle out. I don't want nobody comin' over to my table. I got nothing to talk to anybody about. All good dreamers pass this way some day. Hidin' behind bottles in dark cafes dark cafes. Only a dark cocoon before I get my gorgeous wings and fly away. Only a phase these dark café days.»
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
# 355
terça-feira, 3 de setembro de 2013
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
# 349
Voltei a ouvir os Massive Attack, que deixara de seguir depois de Mezzanine (1998). Escuto sem método - por acaso comecei pelo último disco, Heligoland - e com graus distintos de atenção, consoante o momento, os cinco álbuns deste projecto: como quem se serve da música para acompanhar qualquer tarefa, e noutras vezes tarefa nenhuma. Escolho a designação projecto porque vejo-os como um laboratório com grande rotação de colaboradores que funciona menos como banda em sentido canónico e mais como algo que existe para corresponder a uma determinada marca sonora.
Primeira interpretação, feita a partir da cronologia de edições. Os Massive Attack só gravaram quando bem entenderam que o deviam fazer, e isso é coisa rara. Blue Lines (1991) merece o estatuto de clássico que tem desde há longo tempo, contribuiu para a definição de um género musical novo, é simultaneamente complexo e acessível, música quente e vibrante que surgia num ponto de surpreendente maturidade. Os Massive Attack entraram pela porta dos maiores e ousaram ser diferentes e esperar três anos até nos darem novo disco, Protection (1994), talvez o registo dos Massive onde os convidados mais tenham contribuído na criação de uma identidade forte, sendo também o aspecto mais relevante da sofisticação e elevada qualidade do resultado último: Protection será sempre associado à voz de Tracy Thorn e ao piano de Craig Armstrong. Dá, então como hoje, a ideia de que os Massive Attack tinham o meio musical aos pés.
Nova "pausa", agora de quatro anos, até à chegada de Mezzanine, outra obra-prima e em enorme contraste com Blue Lines. O enfoque no som negro e claustrofóbico, acordes de guitarra saturados e distendidos, um ambiente de fim de mundo, no final de um século. A voz angelical de Elizabeth Fraser a conduzir-nos pelos contornos apocalípticos desta impressionante realização sonora. 100th Wimdow (2003) teve a árdua tarefa de suceder a Mezzanine. Muito, muito difícil tarefa. Produção atribulada, avanços e recuos, e o que ficou de todo o processo foi uma variação sobre o disco anterior atenuada no negrume, talvez demasiado estendida na duração dos temas, que se reflecte na duração total. A matéria musical é ainda bastante interessante, não houve foi arte para moldá-la de modo a repetir os feitos anteriores. É possível que seja o disco dos Massive Attack mais trabalhado em estúdio, mas fica a impressão de não o ter sido suficientemente. Tem no entanto bons alicerces instrumentais e escuta-se com prazer em dias de maior bonomia.
Heligoland chegou em 2010 e deixa uma sensação de que os Massive Attack terão procurado o back to basics. Não mais densos mantos electrónicos, trocados por canções de recorte definido. Perde para Blue Lines porque todos perdem, até mesmo eventualmente Mezzanine. Mas é disco cheio de saber fazer e incutir carisma nas batidas e nas interpretações. Os Massive Attack poderão nunca mais voltar a surpreende-nos como o fizeram nos anos 90 do século XX, mas esgotados é que eles não estão. O comboio prossegue viagem, aleatoriamente, com paragem em todas as estações.
Primeira interpretação, feita a partir da cronologia de edições. Os Massive Attack só gravaram quando bem entenderam que o deviam fazer, e isso é coisa rara. Blue Lines (1991) merece o estatuto de clássico que tem desde há longo tempo, contribuiu para a definição de um género musical novo, é simultaneamente complexo e acessível, música quente e vibrante que surgia num ponto de surpreendente maturidade. Os Massive Attack entraram pela porta dos maiores e ousaram ser diferentes e esperar três anos até nos darem novo disco, Protection (1994), talvez o registo dos Massive onde os convidados mais tenham contribuído na criação de uma identidade forte, sendo também o aspecto mais relevante da sofisticação e elevada qualidade do resultado último: Protection será sempre associado à voz de Tracy Thorn e ao piano de Craig Armstrong. Dá, então como hoje, a ideia de que os Massive Attack tinham o meio musical aos pés.
Nova "pausa", agora de quatro anos, até à chegada de Mezzanine, outra obra-prima e em enorme contraste com Blue Lines. O enfoque no som negro e claustrofóbico, acordes de guitarra saturados e distendidos, um ambiente de fim de mundo, no final de um século. A voz angelical de Elizabeth Fraser a conduzir-nos pelos contornos apocalípticos desta impressionante realização sonora. 100th Wimdow (2003) teve a árdua tarefa de suceder a Mezzanine. Muito, muito difícil tarefa. Produção atribulada, avanços e recuos, e o que ficou de todo o processo foi uma variação sobre o disco anterior atenuada no negrume, talvez demasiado estendida na duração dos temas, que se reflecte na duração total. A matéria musical é ainda bastante interessante, não houve foi arte para moldá-la de modo a repetir os feitos anteriores. É possível que seja o disco dos Massive Attack mais trabalhado em estúdio, mas fica a impressão de não o ter sido suficientemente. Tem no entanto bons alicerces instrumentais e escuta-se com prazer em dias de maior bonomia.
Heligoland chegou em 2010 e deixa uma sensação de que os Massive Attack terão procurado o back to basics. Não mais densos mantos electrónicos, trocados por canções de recorte definido. Perde para Blue Lines porque todos perdem, até mesmo eventualmente Mezzanine. Mas é disco cheio de saber fazer e incutir carisma nas batidas e nas interpretações. Os Massive Attack poderão nunca mais voltar a surpreende-nos como o fizeram nos anos 90 do século XX, mas esgotados é que eles não estão. O comboio prossegue viagem, aleatoriamente, com paragem em todas as estações.
# 347
"A felicidade, para ele, não existe por adição: de objectos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade."
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
# 342
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
terça-feira, 20 de agosto de 2013
# 337
Chega um momento na vida de todas as pessoas em que à falta de alternativas racionais é preciso rezar. Nessas alturas há os que acendem uma vela e os que colocam a tocar uma música de Max Richter. O efeito é o mesmo. Resultados só os que Deus quiser.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
# 334
# 333
"Na prática todos gostaríamos de perceber melhor que tipo de sabedoria estamos a retirar da liberdade sexual que nos é oferecida como uma das grandes conquistas civilizacionais do nosso tempo."
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
# 332
O reconhecimento de Michael Mann enquanto autor de cinema, com uma linguagem e um universo próprios, ocorreu de forma mais consensual em 2006 através de Miami Vice, o seu primeiro filme elogiado quer pela crítica americana, quer pela europeia, e foi com surpresa que nessa altura li notas de entusiasmo de alguns críticos portugueses que antes torciam o sobrolho ao estilo de Mann. Pela minha parte continuo a considerar que Heat (1995) é o filme onde Michael Mann surge no controlo absoluto dos elementos fílmicos (guião, música/ som, e imagem) que se ligam para criar um todo poético onde o universo da criminalidade é retratado pelo contraste entre as muito virtuosas sequências de acção e outras cenas onde a atmosfera isola o indivíduo e antecipa o seu destino trágico. Heat continua a ser em minha opinião a obra-prima deste realizador, e foi com agrado que reconheci a utilização não creditada da partitura de Elliot Goldenthal em dois momentos do primeiro episódio de Luck, série da HBO que Michael Mann produziu, tendo igualmente dirigido o episódio piloto. Um episódio de autor: que assina com imagens e também com música.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
# 331
Um grande homem uma vez disse que quando matamos alguém tiramos tudo o que essa pessoa foi e o que poderia ter sido. Werner Herzog não passa ao lado do aspecto mais trágico de vidas que de diferentes maneiras foram interrompidas. Por se tratar de um grande realizador transcende o aspecto mais doloroso do que filma com exemplos do perdão. Este é também um filme sobre os limites que o acto de perdoar conquista ao que parecia imperdoável.
# 330

Tomo nota para no caso de esquecer poder vir aqui recuperar o raciocício. Há algo que se altera na passagem da terceira para a quarta temporada de Os Sopranos que é mais sensível do que qualquer alteração que tenha vindo antes. É como se a psicologia das personagens passasse a ditar claramente aquilo que acontece, ao contrário do que sucedia quando a acção ajudava à caracterização das muitas figuras. Assim Os Sopranos torna-se menos uma série de acção e mais uma série reflexiva. Isto confunde-se um pouco com a literatura e pode mesmo ter sido essa a intenção. O movimento dirigiu-se do exterior para a interioridade, o que talvez explique o ritmo diferente, mais pausado a partir daqui, com mais momentos de suspensão. Não faço ideia se esta dinâmica irá continuar, uma vez que tamanha interioridade poderia afastar os espectadores da série. Mas talvez, três épocas passadas, a audiência de Os Soprados estivesse de tal modo circunscrita, no seu elevado número, que a fidelidade não seria posta em causa pela experimentação. Entre a difusão das terceira e quarta temporadas aconteceu o 11 de Setembro, mas até ver isso não foi incorporado nos eventos. Pode é ter passado directamente para o espírito da ficção. A imagem promocional é elucidativa. Estas personagens não estão umas com as outras, mas consigo próprias. Por outro lado aquilo que observamos não parece ter correspondência no luto de uma nação, a não ser no luto de cada um pela sua condição solitária, por sermos o principal obstáculo ao fim dessa condição. Para que é que cada um escreve, filma ou faz outras coisas? Para chegar a outros ou para que outros venham até si?
# 329
Para quem se questione sobre se a vida tem sentido. O sentido de existir talvez se resuma nisto.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
# 327
Um grande filme de Sofia Coppola, aquele onde é maior a correspondência entre o trabalho formal que lhe reconhecemos e o assunto de que se ocupa. É um filme de ruptura de tão fenomenal com o nosso imaginário em relação à juventude, como o foi Elephant de Gus Van Sant, e a larga distância no seu real interesse de Spring Breakers de Harmony Korine, com quem tem pontos de contacto. Coppola capta o hedonismo e a irrealidade que transfere para a experiência sensorial que é ver The Bling Ring, e coloca num mesmo plano os adolescentes e as celebridades por eles idolatradas. Aliás as vidas dos jovens do filme de Sofia Coppola mimetizam no sentido sensacionalista as daqueles cujas casas assaltam com o fascínio de aceder a mansões que são museus erigidos pelos proprietários num culto de personalidade que passa exclusivamente pela posse extravagante de objectos de moda, o dinheiro arrumado em qualquer sítio, e imagens suas espalhadas por todo o lado. The Bling Ring é um filme sobre o fenómeno da celebridade instantânea e consegue fazer-nos perceber a fantasia que toma conta dos que se projectam nas vidas "fantásticas" dos famosos. E, muito importante, sem moralizar. Uma fantasia perpetuada por imagens que substituem a realidade até que esta se torne indistinta das imagens que a canibalizaram. Um grande filme de Sofia Coppola, sem dúvida nenhuma.
# 325
Appolonide, Memórias de um Bordel (Souvenirs de la Maison Close, 2011) presta-se a várias leituras, inclusive as que como no caso da publicação Le Parisien vejam nele "um grande filme feminista". Sou da opinião que Bertrand Bonello quis fazer um filme de fantasmas, algo que evocasse em particular o ambiente vivido num bordel de Paris, na passagem do século XIX para o seguinte, quebrando o aspecto realista da cuidada reconstituição com a música, instrumental ou cantada, clássica ou contemporânea, que existe para reforçar a atmosfera do filme, como se de um sonho se tratasse. O filme começa precisamente com um sonho, contado por uma das prostitutas, Madeleine, ao seu cliente regular. O nome Madeleine não é fruto do acaso, pois não arrisco muito ao dizer também que Marcel Proust é a maior referência do filme de Bonello. Madeleine funciona duplamente, quer como propulsor da evocação que o filme faz, quer como observador da acção, colocado a uma certa distância a partir do momento em que fica desfigurada e deixa de poder trabalhar como dantes. Madeleine é o elemento que liga os diferentes quadros, de um luxo decadentista, quando se trata de cenas em interior, ou de um pós-impressionismo renoiriano, como no episódio do piquenique das raparigas do lupanar parisiense que depois se banham nuas no rio. Bonello decide quebrar bruscamente a unidade temporal quando nos mostra no final as ruas de Paris com as profissionais que se oferecem a quem passa de carro. Despertado do sonho, este filme que nunca se define em relação ao que mostra, a não ser no plano estético, abre-se para o plano do real, fora da casa, fora do sonho, fora da imaginação.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
# 324

June Tabor (n. 1947) tem um disco novo belíssimo gravado em 2006 que é ao vivo mas onde não se escutam aplausos nem a sempre distrativa pigarreia do público, e que sendo de um projecto paralelo ao tronco principal da sua discografia é tão reconhecivelmente de June Tabor como os outros. Virá apresentá-lo no Teatro Maria Matos dia 25 de Setembro com os elementos do trio Quercus: o pianista e há muito director musical de Tabor, Huw Warren, e o saxofonista Iain Ballamy. Para o meu gosto o evento mais importante do início da próxima temporada.
# 323

Por uma vez a tradução criativa do título de um filme vai directo ao assunto. Olhem para Mim é menos subtil que Comme une Image mas reflecte com justeza o resultado da observação inteligente do comportamento humano operada por Agnès Jaoui (argumentista, realizadora, e actriz) e Jean-Pierre Bacri (argumentista e actor), que dá conta dos atritos resultantes de nos colocarmos demasiado no centro das nossas vidas, com o que isso implica de vitimização e culpabilização. Tudo para correspondermos a uma imagem, algo que julgamos que nos fará mais importantes para os demais. Essas imagens assumidas como modelos de vida chegam-nos da televisão, da publicidade, daquilo que atribui estatuto social a uma pessoa qualquer. A lente de Jaoui e Bacri é perspicaz e não perde tempo a explicar o que sabemos já. Reconhecemo-nos nas fraquezas que atraem ou repelem as personagens umas às outras. Desconcertante é o facto do filme poder parecer mais actual hoje que há dez anos quando foi produzido. Mas não é obra revolucionária, ou então é-o apenas no sentido cada vez mais raro de nos confrontarmos com algo que espelhe sem alarido mas com humor as ilusões de que somos feitos. Especular-se-ia que a "imagem de Deus" se mudou para o Facebook e o Photoshop que permitem sermos criadores constantes e permanentemente insatisfeitos de nós próprios.
# 322
Ao mesmo tempo que na Gulbenkian se celebrava o 60º aniversário de John Zorn com a primeira de três noites do músico em palco, eu fazia a redescoberta deste filme de Michael Winterbottom (9 Songs, 9 Canções, 2004), que numa das cenas em concerto assinala o sexagésimo aniversário de Michael Nyman. Circunstâncias que geram coincidências, e não me dei mal com a troca. A distância do momento inaugural que promovia o filme do inglês pelo seu carácter explícito, permite olhá-lo agora por aquilo que é: a crónica de uma paixão fugaz, com Londres por cenário, que usa por contraponto os vários concertos a que o casal assiste, sendo que num deles ele vai sozinho, ou as recordações desse amor narradas pelo homem enquanto sobrevoa os glaciares da Antártida. É um bom filme, este Winterbottom, um império de sentidos para o novo milénio onde os rituais da intimidade são necessariamente outros, mas onde a solidão dos indivíduos, homens ou mulheres, é a mesma. Como se ir ao mais próximo do que é possível dar a ver confirmasse os limites do conhecimento de nós e dos outros, aquilo a que não podemos ter acesso. O que fica oculto nas entrelinhas de uma canção ou nas enormes porções submersas de gelo, para focar elementos que este filme trabalha em sentidos narrativo e metafórico. Com frontalidade, concisão, e para os que nele encontrarem algo mais de aproveitável, pedagógico até.
# 321
Citemos o "grande homem", não aquele que cita, Francis Underwood, congressista democrata norte-americano, mas quem por ele é citado, Oscar Wilde. Tudo no mundo está relacionado com sexo, excepto o sexo que é uma questão de poder. Tudo nesta grande série é questão de poder. Todos têm poder e exercem-no sobre quem tem menos. Exercem-no de acordo com os próprios interesses. Ninguém é inteiramente bom ou integralmente mau. Apenas o poder atribui a máscara que os distingue de entre os vários graus de cinzento. Pensem na trilogia Millennium, de Stieg Larsson, que a maior parte terá lido ou pelos menos conhece numa das adaptações ao cinema. Agora pensem na versão melhorada e de correspondência mais directa com o nosso tempo. House of Cards é uma série de excelência, seja qual for o ângulo de análise. Primeira temporada. Treze episódios. Zero pontos fracos.
# 319
" Passei as férias, como compete à minha idade e à minha condição, a ler e a dormir, sem pôr um pé na rua. Assisti à trapalhada política que tanto comoveu o país de muito longe: alguns jornais com o café da manhã, uns minutos de televisão (normalmente sem som), os dois discursos de Cavaco e pouco mais. Acabei por concluir que, no fundo, não aconteceu nada."
terça-feira, 30 de julho de 2013
# 317
O retrato que Julien Temple faz de Joe Strummer é o de um humanista que se terá caracterizado de várias outras formas, nunca desta. Trata-se de um retrato post mortem, muito apoiado em depoimentos gravados com Strummer e em imagens de arquivo que tantas vezes surpreendem em trabalhos deste género. Fazendo uso da ética punk como proclamada pelo ex-líder dos The Clash, a de tratarmos qualquer homem como nosso semelhante, nenhum dos entrevistados é identificado, seja ele Johnny Depp, Bono, Jim Jarmusch, Mick Jones, Matt Dilon, Steve Buscemi, Martin Scorsese ou John Cusack. Sempre com o cenário de uma fogueira por perto, que era como Joe Strummer mais gostava de estar com as pessoas. Impressionante e finalmente bastante lúcido.
# 316
Para começo de discurso, isto não é um filme mas antes uma taluda genética. A sorte grande. Vários bilhetes premiados. São todos lindos. Tudo em volta é lindo. Tem mulheres. Tem ondas. Tem sol. E está mais para o Célebres e Ricas (George Cukor, 1981) que para As Baleias de Agosto (Lindsay Anderson, 1987). Quando a realizadora Anne Fontaine nos dá um plano que percorre o corpo nu de Robin Wright dos pés à cabeça, para que nos certifiquemos que é mesmo o corpo da actriz, que surgira já maravilhosa das vezes anteriores, o momento é pontuado por uma frase da personagem, Roz, dirigida ao amante, filho da sua melhor amiga, que por vez dela se amantizara também com o filho da bela Robin, dizendo-lhe que dali a uns anos não o deixará mais vê-la assim. A gente normal que olha para Paixões Proibidas (Two Mothers ou Adore no original) deste lado prosaico da ressurreição, responde para dentro: daqui a muitos anos, estaremos nós a padecer de glaucoma e tu e a Naomi Watts terão ainda o mesmo corpo (o que em matéria de cinema, seja película ou digital, corresponde à verdade). Como disse de início, isto não é um filme. Antes um sonho embrulhado em cinema convencional como a moral que espelha, em dobro.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
# 315
Só Deus Perdoa / Only God Forgives joga-se entre a parede castradora e uma lâmina justiceira. Parece-me óbvio que as figuras mais fortes do filme de Nicolas Winding Refn são a mãe de Billy e Julian (interpretada com requintes viperinos por Kristin Scott Thomas) que chega a Banguecoque para vingar a morte do filho predilecto, custe o que custar, e o polícia encarregue da investigação da morte da prostituta aos punhos de Billy, que tem frieza moral de aço acompanhada de um peculiar sentido de aplicação da justiça, simbólico e literal ao mesmo tempo. A complexidade dramatúrgica dos filmes de Winding Refn pode ser tida por adolescente, mas prefiro sublinhar o modo como o realizador dinamarquês convoca arquétipos próprios da mitologia para Só Deus Perdoa. O estilo visual é hipercontrolado como de costume, mas ao contrário de Drive fica quase sempre aquém do ponto da nossa saturação. Ryan Gosling, ainda que não inteiramente convincente parece aqui mais ajustado na figura do irmão que recalcou a masculinidade atrofiada pela manipulação materna no pior uso das mãos, em explosões de violência que visam dar expressão às extensões do homem que não pode ou não consegue passar afecto, no que é uma total contradição com aquilo que inspiram os olhos azuis violeta e o silêncio dócil do actor. Gosling é Julian, agente vingador relutante que acabará por quebrar em virtude de lhe faltarem os atributos morais que acrecentam força ao seu opositor, o chefe de polícia tailandês. É preciso olhar além da sobredosagem de estilo que caracteriza os filmes de Nicolas Winding Refn. À sua maneira, tão sofisticada quanto pouco subtil, ele também procura repor uma ordem moral que por via da evocação de mitos e dos filmes dá conta do mundo dos homens. Só Deus Perdoa é acima de tudo um filme sobre a castração simbólica. Os punhos no lugar do falo, quando o tamanho moral se afirma a golpes de sabre.
# 314
Quando Alex (Dirty Beaches) se veio juntar ao público da ZDB, e tal como combináramos, despi e entreguei a t-shirt à pessoa do lado e subi para o palco, onde por instantes executei uma coreografia de Muay Thay que terminou com saudação dirigida à plateia e o regresso, após nova troca de posições com ele, ao mesmo lugar onde continuei a assistir ao resto do concerto.
(apócrifo mas não todo; foto de Luís Martins)
sexta-feira, 26 de julho de 2013
# 313
Cinco canções chegaram ao final em primeiro lugar, empatadas com dois votos. Obrigou ao execrcício do "voto de qualidade", e assim a melhor canção dos Prefab Sprout de sempre é Desire As. A escuta e as conclusões agora a vós.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
quarta-feira, 24 de julho de 2013
terça-feira, 23 de julho de 2013
# 299
Não é garantido que esta imagem corresponda a um plano de François Ozon, autopromovido à condição de pequeno sátiro. Procurava uma outra que ilustrasse o travelling sobre o corpo deitado de Kristin Scott Thomas, que termina num grande plano do que poderá corresponder ou não aos pés da actriz, de unhas impecavelmente pintadas em tom castanho. Isto para dizer que Dentro de Casa é um filme que entretém mas que não arrisca. Que sugere sem verdadeiramente beliscar. O verniz está lá para ser verniz, não para estalar.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
# 297
Os novos misfits encontram-se no cinema de Wes Anderson. Anderson filma personagens inadaptadas em busca de sentimento de pertença que só pode ser obtido no interior do universo colorido, excêntrico e fabricado de Wes Anderson. São filmes de alguém que continua a brincar sozinho, tendo por única companhia a própria imaginação. O espírito de aventura que atravessa a obra andersoniana ampara e engrandece a fragilidade das suas figuras. Estamos com elas porque queremos estar também dentro dos filmes. How misfit is that?
sexta-feira, 19 de julho de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
# 295
Felizes os convidados para irem ao encontro do apóstolo do rock'n'roll. Os que não puderam lá estar imaginam que o momento é agora e que o apóstolo também a eles se dirige. Estamos no reino dos possíveis: o que sempre perdura. Amen \m/.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
# 293
"O filme que vocês assiste nesse site é feito a partir de imagens dos dois filmes do DVD Mormaço, que estará nas lojas a partir do dia 21 de maio de 2013. Nem todas essas músicas ou imagens estão no dvd, já que esta é uma edição feita só pra internet. Fizemos eu, Fernanda Krumel e Felipe Thomé sob imagens e sons que foram captadas ao longo de mais de um ano por mim, pelo Jack Coleman, pelo Rodrigo Pesavento e sua equipe da Zeppelin e por meus amigos que eventualmente estiveram por perto. O DVD mesmo tem os dois filmes inteiros. O show filmado no Theatro Sao Pedro, em Porto Alegre, com participação do Thomas Rohrer tocando rabeca e da Mallu, e também o filme Dama da Noite, filmado em 8 e 16 milímetros sobre a turnê com os Hurtmold e com o Thomas em imagens de estrada, bastidores e também imagens de casa. Espero que vocês gostem. Um abraço e até logo mais."
terça-feira, 16 de julho de 2013
# 291
Quando David Simon convida Steve Earle para aparecer nas suas séries sabe bem que as credenciais de "been there, done that" de que passa a dispor são do caraças. Isto é do caraças!
segunda-feira, 15 de julho de 2013
# 289
Antes da Meia Noite é um filme onde o amor está sempre em questão, quer sob a forma de diálogos, quer em acção, quer pela simultaneidade de ambas as formas. O fluxo discursivo não conhece pausas, nem para observar umas quaisquer ruínas ou o pôr-do-sol num particular local. Alguém intervém no meio de uma situação tchekoviana – o escritor mais velho, Patrick -, uma conversa à mesa da refeição sobre as idades do amor, ou de que modo em diferentes idades a nossa concepção e prática do amor se modifica, para lembrar a frase inscrita no Oráculo de Delfos, que impele o homem a se conhecer a ele mesmo. É como se o filme de Linklater implicasse este desconhecimento de nós próprios como o principal obstáculo à experiência gratificante do amor, no que é bem capaz de ter razão. Existe em todo o filme uma neutralidade formal que não distrai daquilo que é o mais importante: o texto e os actores. Na terra onde o teatro nasceu, Linklater oferece-nos uma peça a céu aberto, como aliás eram apresentadas na Grécia Antiga. Esta neutralidade ou funcionalidade da planificação contribui também para olharmos a acção como para um espelho. Aquilo que lá está pode ser usado para revelar coisas acerca de nós. Acerca do modo como vemos as relações. Em que momento nos encontramos da concepção que fazemos do amor. Isto produz resultados tão claros e subtis como o facto de podermos torcer por diferentes desenlaces para a história de Jesse e Celine. Mas isso só é importante se disser algo sobre o espectador. Na medida em que permita perceber qualquer coisa ligada com as flutuações dos estados de alma, o modo como isso condiciona a relação com o filme, e de que maneira permite aceder ao conhecimento dele mesmo. Algumas vezes a aceitação de um filme, que até pode estar separada de uma questão de gosto, pode ligar-se com o reconhecimento e a aceitação de coisas muito nossas. Uma espécie de terapia que nos coloca dentro e fora do "palco". Em dias diferentes pode ter resultados diferentes, e eu sou prova disso mesmo, que vi Antes da Meia Noite uma segunda vez. Nunca são demasiadas as "visitas" ao Oráculo de Delfos.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
# 287
O primeiro colapso de Tony Soprano corresponde ao momento em que ele subconscientemente tem noção de que a ideia de família que mantivera no seu íntimo ruiu. Quando os patos levantam voo é como se o passado e o presente da vida de Tony, aquilo que guardava como seguro, ainda que sustentado pelas aparências, tivesse sido puxado por debaixo dos seus pés. Ele tomba, sim, pela primeira de várias vezes. O homem em queda que serve de mote à melhor ficção produzida em anos recentes: ver o genérico de Mad Men para outra representação em sentido literal.
Tudo. To be continued.
# 286
"Toda
Sorry big Nelson, mas os tempos são outros.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
quarta-feira, 10 de julho de 2013
segunda-feira, 8 de julho de 2013
# 281
Não há melhor vingança nestes dias de inferno que dar um mergulho na praia depois das nove da noite.
# 280
Assim no amor como na pesca. É preciso deixar que a fortuna nos encontre e, pelo sim pelo não, ter a cana sempre por perto. A lição foi proveitosa, Mestre Hawks.
(na Cinemateca)
# 279
sexta-feira, 5 de julho de 2013
quinta-feira, 4 de julho de 2013
# 276
Pudesse eu saber o que vinha antes e teria saltado directamente para a Parte III, capítulo 3.2 e seguintes. A frieza dos números e o gelo maior dos relatos. Mas também alguma confusão, como na relação directa entre a falta de desejo e o fim do amor. Só numa concepção utilitarista do amor: de um amor que apenas serve para sermos servidos. Desejo é sinónimo de saúde física; amor decorre da saúde do espírito. Existe todo um manancial de afectos pelo caminho. O problema é quando não conseguimos ter tudo e optamos por ficar com nada.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
# 275
Carlos Reygadas mostra boa dose de consciência do seu talento (é artista), mas reconheça-se que o filme implica o espectador com todos os sentidos possíveis, e despe-nos o olhar para melhor vivenciarmos a experiência da intimidade (do que está muito próximo da vida ou da morte) que é Post Tenebras Lux. O olhar num igual plano que o dos animais ou da criança que corre atrás deles no início do filme, nomeando-os como se estivéssemos na criação de um mundo. Cinematograficamente, estamos.
As imagens. Desfocadas nos limites e a causarem um efeito de relevo, também pela duplicação de alguns elementos que se deslocam ou que são reenquadrados nas margens do plano. Marcadamente plásticas, a sua materialidade mais sensível como na pintura. Uma pintura hiper-realista. Uma realidade que surge ampliada diante de nós.
(na antestreia)
terça-feira, 2 de julho de 2013
# 273
Progride como se promovesse o encontro entre as sensibilidades musicais dos The Go-Betweens com o Ryuichi Sakamoto mais emplumado, largando os Betweens a caminho do final para fazer entrar o Eno da fase Before and After Science. E sempre Destroyer. Intemporal e enciclopédico.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
# 272
Perceber o que se transforma no que permanece é anular momentaneamente o tempo cronológico e torná-lo horizonte sem princípio, sem meio, e sem fim.
# 270
"Quando Marilyn viu os lenços, foi directa: 'Quer fazer nus?' Mais tarde definiria as regras: 'Não vou tirar as calças.' Preocupava-a a cicatriz de uma operação à vesícula. Mas o champanhe libertaria a euforia, dando origem a uma espécie de back to basics para a actriz e para o olhar de um fotógrafo. Um último hurrah para ela: como se passasse por cima do que Richard Avedon, Cecil Beaton, George Barris, Sam Shaw e Milton Greene tinham feito antes – todos eles, de uma forma ou de outra, querendo aplacar a culpa do voyeur por olhar para aquele corpo."
sexta-feira, 28 de junho de 2013
# 269
"O melhor programa da crítica, em termos simples, está num filme de Hitchcock: Rear Window (A Janela Indiscreta, 1954). James Stewart passa a vida com os binóculos a olhar para as janelas. Há uma cena em que entra a Grace Kelly, ele passa-lhe os binóculos e diz-lhe assim: 'diz-me o que vês e o que pensas que significa'. Esta frase do James Stewart é o que deve ser o programa de um crítico de cinema."
quinta-feira, 27 de junho de 2013
quarta-feira, 26 de junho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
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