segunda-feira, 6 de maio de 2013

# 193















É possível que aquilo que mais me tenha impressionado em Away We Go/ Um Lugar para Viver (2009) seja o facto de ser tão desprovido de cinismo, a ponto de não recordar de repente outro filme que se lhe compare. O casal interpretado por John Krasinski e Maya Rudolph espera um filho e face à impossibilidade de ficarem com a casa dos pais dele, que será alugada mal estes partam por um par de anos para a Europa, viajará pelos Estados Unidos e Canadá, visitando familiares e amigos, em busca do melhor lugar para prosseguirem com a vida. Existe uma ou outra personagem cínica no filme de Sam Mendes, pais de família cuja funcionalidade mais ou menos excêntrica obedece a um programa que o filme põe a claro sem carregar no julgamento ou na demagogia. Burt (Krasinski) e Verona (Reynolds) são pessoas normalíssimas, adultos de trinta e poucos anos que se sentem inseguros em relação às suas capacidades e àquilo que obtiveram na vida, ele mais acriançado e carinhoso, ela nada seduzida com a ideia de ambos casarem, sem que no entanto isso signifique que os seus sentimentos por Burt sejam inferiores. O equilibrio da relação resulta de os dois serem pessoas equilibradas, um pouco cândidas mas não tansas, que se manterão firmes no propósito de encontrar o lugar apropriado para criarem uma família. Agora que por aí começou a circular um cartaz que apresenta a anatomia feminina significada por dois parêntesis curvos, encimada pela frase "forget about love", dá vontade de contrapor a discreta existência do filme de Sam Mendes de há quatro anos, justamente para dizer "remember what love is". Como se o amor fosse o oposto do cinismo ou a possibilidade de lhe resistirmos, reforçado também porque cantado (em cima do que é contado) por um trovador de hoje da estirpe de Nick Drake, que Sam Mendes veio a descobrir em Alexi Murdoch, autor das canções que pontuam todas as deslocações até à chegada definitiva.    

# 192

Não me parece que exista leitura de segundo grau num filme como Spring Breakers/ Viagem de Finalistas. Aquilo é o que é: pulp fiction hiperrealista com estudantes de bikini que visa apenas a excitação dos sentidos, uma vez que todo o reverso moral assenta num acumular de inverossimilhanças. Talvez Harmony Korine tenha mudado de mentor. De Werner Herzog passou-se para Oliver Stone. Ou talvez tenha apenas querido fazer dinheiro com este filme.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

# 191


© Cambria Harkey

# 190




"what really keeps the wolves of loneliness at bay is probably not sex, but intimacy"

# 189

# 188



Sobre a beleza do gesto, o momento em que o balão de whisky surge no enquadramento aos 2 minutos e 16 segundos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

# 187


















Do que gostei de verdade no novo filme de Robert Redford (n. 1936) foi ele se ter filmado aos sessenta e muitos anos (idade da personagem) com uma filha de onze: tema eastwoodiano, na vida e no cinema, que True Crime (1999) mostrou com superior verve. O resto de Regra de Silêncio não me parece que justifique tirarmos o corpo do sofá, e a própria questão da paternidade tardia só comoverá alguns.

# 186

























Distraí-me a contar o número de pessoas que não enchiam a sala de concertos da ZDB (Zé do Boogie por uma noite) para ver Endless Boogie. Estariam no limite umas cem. A 8 euros o bilhete e imaginando o provável cenário da divisão de bilheteira entre os músicos e a casa, que irrisório seria o cachet da banda. Depois quando o vocalista e guitarra solo “Top Dollar” se pôs a elogiar a cozinha portuguesa que acabavam de conhecer, e o quanto a comida era importante para os elementos dos Boogie, concluí que eles tocariam até a troco de uma boa refeição, o que só faz quem está na música por paixão (o recente CD Long Island era vendido a 10 euros) e não por carreira. Os Endless Boogie tocaram com paixão e encheram-nos a barriga.

terça-feira, 30 de abril de 2013

# 185

# 184

"... prometo desiludir-me contigo e só contigo; prometo fazer de ti o único repositório dos meus pesares, em vez de os distribuir por vários casos extraconjugais e por uma vida de Don Juanismo sexual; analisei as diferentes opções para ser infeliz e foi contigo que escolhi comprometer-me. É este o tipo de promessas generosamente pessimistas e gentilmente pouco românticas que os casais deviam fazer..."

# 183

























Não foi unicamente a experiência do amor que aconteceu na vida de James Blake entre o seu primeiro CD homónimo e agora Overgrown. O amor e a distância podem dar conteúdo lírico ao disco novo mas o que de mais notório sucede, sucede a nível puramente instrumental. É como se a primeira edição, James Blake (2011), funcionasse como ecografia onde se observava o organismo que aqui reconhecemos. James Blake é actualmente um artesão mais confiante, muito por obra dos concertos que deu e dos artistas que encontrou, em trabalho, e os que lhe validando o talento vieram com ele ter. A base musical de Overgrown continua situada entre o gospel branco e a electrónica dubstep, caracterizada por uma série de ecos e texturas que nunca favorecem a imagem definitiva, preferindo-lhe o seu reflexo, o seu fantasma. Esta abertura ao mundo da parte de James Blake faz de Overgrown um disco mais expansivo, com maior número de camadas instrumentais, batidas mais sensíveis nem sempre em desacelerando, uma música que não chega a empurrar o corpo para dançar, mas que nos convoca para uma audição mais desperta e activa. A voz de Blake perdeu também alguma timidez, tendo que fazer-se notar em ambientes saturados de acordes e percussões. A raiz emocional é no entanto (exactamente) a mesma de sempre. James Blake continua a gerir com grande sensibilidade as micro-nuances emocionais das suas canções, e acaba por ser esse o elo que nos liga a cada uma delas, sejam mais despojadas ou dinâmicas. Overgrown acrescenta vida e experiência ao trabalho artístico de Blake, o que é de todo natural e tanto mais expectável quando se trata de um jovem adulto em quem o mundo pôs os olhos e ouvidos, e que nos devolve hoje a cortesia. Overgrown concentra todo o James Blake, músico e indivíduo.   

# 182



Momentos de glória.

sábado, 27 de abril de 2013

# 181

# 180


Tudo acaba. To be concluded.

# 179















Feministas deste nosso planeta culpado e esclarecido, fujam do filme. Quenianos do mundo inteiro, meus irmãos de corpo completo, uni-vos. Não mais se entreguem ao papel de paus-mandados, por muito que isso pouco vos custe. Isto foi o melhor filme deste IndieLisboa até ver. Até que alguém alcance mais além das fronteiras do politicamente incorrecto que o austríaco Ulrich Seidl. Fiquei fã.

Aviso: este filme tem fitinha cor-de-rosa.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

# 178




















"Thunder only happens when it's raining/ Players only love you when they're playing"

Do último lote de aquisições: Fleetwood Mac, Rumours (um regresso), Roy Orbison, In Dreams, Gorillaz, Demon Days (a Mojo diz que é o melhor disco que Damon Albarn alguma vez fez...), The Neville Brothers, Yellow Moon, Nick Cave & the Bad Seeds, Kicking Against the Pricks.

terça-feira, 23 de abril de 2013

# 177

# 176

# 175

























"I have met men in jail with style
I have met more men in jail with style
than men out of jail
Style is a difference, a way of doing,
a way of being done
Six herons standing quietly in a pool of water,
or you, walking out of the bathroom naked without seeing me"

As palavras de Bukowski de que este retrato de Ben Gazzara (1930-2012) se apropria - ele que fez de Bukowski no cinema, com Marco Ferreri - caracterizam uma ideia de estilo que se confunde com o talento que se confunde com a arte de viver. Gazzara conta no início o primeiro contacto que teve com a morte quando muito jovem viu um amigo desaparecer acidentalmente nas águas do Hudson. No momento decisivo, anos mais tarde, não hesitou e atirou-se para uma breve carreira no teatro que logo passou para a televisão e o cinema onde pagavam mais. O dinheiro ajuda a arte de viver. Ajuda saber gastá-lo com estilo. Viver com estilo, no cinema e fora dele. O estilo de Gazzara nasce da persona que criou em cima da sua timidez, onde se sentia seguro a desafiar o risco, embora controladamente. Teve longa vida e trabalhou até ao fim. Regressou do outro lado quando esteve como morto por três minutos (num pós-operatório) e diz que não se vê nenhuma luz branca. Provavelmente a morte é que terá ficado ofuscada com o seu brilho. É próprio do estilo sugar a luz em volta. Se virem este filme assistirão ao modo como Gazzara, de uma lucidez incrível e com uma vitaliade surpreendente para quem no final da vida ia buscar oxigénio a um pulmão apenas, ilumina as ruas de Manhattan por onde caminha à conversa com Joseph Rezwin, autor do projecto que conheceu Ben Gazzara a filmar com Casssavetes Opening Night (1977). E Ben Gazzara, o sedutor, que não tinha tempo para se envolver com actrizes porque o chamavam constantemente para filmar (segundo ele era o seu motorista que tinha o proveito), e que viveu os últimos 30 anos sempre com a mesma mulher, muitas horas de todos os dias. Que melhor definição de estilo que a descrição daquela relação (feita por ela, Elke Gazzara) de mais de três décadas? Central "part".  

 Passa sexta-feira na Cinemateca como parte da secção "director's cut" do IndieLisboa.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

# 174

"There is not really any other way for Simon to be with people, or to be in the world: he is fixated on the physical, both pleasurable and violent, to the exclusion of all else. This is how he expresses his dominance, how he understands his own masculinity. But this way of being is never excused, sentimentalized, or glorified in the film."

Excelente texto de alguém que valerá a pena seguir.

domingo, 21 de abril de 2013

# 173
















Onde há vermelho não existe esperança. Nenhum espaço para recuperar uma cabeça doente. A colorização para fora traduz o que trazemos dentro, e o cinema é também a arte de tornar visível o que é interno. Simon Killer, hoje a amanhã no IndieLisboa. 

# 172








































































Record store yesterday. Usados quase novos.

sábado, 20 de abril de 2013

# 171






































Um bom filme que originou uma boa entrevista e que espero venha a dar duas boas apresentações. Até mais ver aprendi a lição (ou alguma outra coisa).

sexta-feira, 19 de abril de 2013

# 170

Quis saber se a expressão "fuck the pain away" repetida várias vezes na última cena de Peaches Does Herself, quando Peaches abandona o teatro montada numa bicicleta, era um incitamento a ter(mos) sexo para fazer baixar a sensação de dor ou um grito que visa o exorcizar dessa mesma dor. Respondeu que funcionava das duas maneiras. Talvez fosse então uma pergunta retórica. Perguntas retóricas são como pólvora seca. Dali ninguém saiu nem mais nem menos magoado. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

# 169



















Em Avanti Popolo, que integra a secção Cinema Emergente do IndieLisboa, até a cadelita Baleia é de esquerda. A apatia da bicha quando lhe lançam a bola para brincar, parece sofrer do contágio que mantém parada, inalterada, a casa onde vivem um idoso, interpretado pelo cineasta brasileiro Carlos Reichenbach (falecido recentemente), e o filho de 40 e picos anos que para lá se muda na sequência de divórcio. É um cenário algo desolador, que respira tédio, filmado sempre com o mesmo enquadramento para dar conta da sua natureza morta. Uma catacumba cheia de memórias do período da ditadura no Brasil, onde se guardam também os filmes em super 8 do outro irmão da família, desaparecido em 1974 em circunstâncias pouco explicadas. A casa morreu com ele e quem lá vive desloca-se de braços tombados. É preciso descascar muitas camadas de tédio até se perceber o humor que resiste em tão lacónico projecto. Aqui os amanhãs não cantam mais, excepto nos vinis de antigamente nem sempre no melhor estado de conservação. A paciência para hinos de países comunistas acabou-se, assim como disponibilidade para aceitar dogmas ou regras de qualquer índole. O realizador Michael Wahrmann faz uma bela voz de rádio, grave e tingida por uma certa melancolia, que assinala os começo e final de Avanti Popolo. Deparamo-nos com um objecto original e a possível versão uruguaia-judaica-brasileira de Nanni Moretti sedado. Sacudam-lhe o pó que não se vão arrepender.

# 168

"What looks large from a distance.
Close up ain't never that big."

quarta-feira, 17 de abril de 2013

# 167































Termino o visionamento e sinto-me vazio por dentro. Preciso de encontrar o atalho para falar disto sem que falemos de mim. Seria pouco profissional e quero ser profissional. Não há opção. Apenas trabalho.  

# 166

"Ninguém oferece nada, a não ser cabedal e suor."

terça-feira, 16 de abril de 2013

# 165


























Seria sempre um objecto que se encontra no extremo oposto de qualquer outro, pela natureza do que é e não por um qualquer desejo de auto-exclusão. Lacrau, de João Vladimiro, integra as competições nacional e internacional do IndieLisboa, e lembrei-me da forma como um amigo descrevia Holy Motors, de Leos Carax, como sendo um filme sobre o fim das coisas (do mundo). Há elementos visuais que aproximam Lacrau (enquanto nos mantemos no espaço urbano) do cinema de Carax, mas aqui o projecto parece ser o de viajar até ao princípio do mundo, que até tem geografia comum com o Oliveira desse título, que vem a acabar onde Lacrau quase começa: em Trás-os-Montes, referência que remete ainda para o cinema de António Reis, talvez o cineasta português de quem Vladimiro estará de facto mais próximo. Não descortinamos narrativa (ou é praticamente ininteligível). Tudo é poesia. Poesia que nasce da matéria (como nos textos de Francis Ponge ou nos filmes de Jean Daniel Pollet).
Nada mais existe para inventar na linguagem do cinema, mas Lacrau consegue manter-nos na ilusão contrária em vários momentos. Objecto de texturas, sempre texturas, sonoras e visuais. Moldado com luz e sombra. Moldado com sons e vozes e música e silêncios, que entram e saem como se fossem aparições. Em total paridade com as imagens. Há uma dimensão mística ou religiosa (ou ambas) no filme de João Vladimiro. Uma paz que é sensível se nos entregarmos à sua liberdade. Um novo fôlego ou pelo menos um segundo primeiro sopro. Para aceitar e só depois interpretar.

# 164































Sim.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

# 163






































Não existirão outros filmes como Simon Killer nesta edição do IndieLisboa. Arriscaria dizer que é caso único. Alienação numa grande cidade (os desencontros de Paris), o abismo psicológico para onde se foge e de onde é difícil escapar, o sexo como despersonalização: algo que permite sermos um outro ou existirmos apenas enquanto corpo. Como se Taxi Driver tivessse sido escrito por Bret Easton Ellis, para Steve McQueen filmar. Mas um McQueen com menos de 30 anos, chamado Antonio Campos, e a idade também importa para perceber o universo e os resultados.   

sexta-feira, 12 de abril de 2013

# 162






































Rhiannon rings like a bell through the night and
Wouldn't you love to love her?
Takes to the sky like a bird in flight and
Who will be her lover?

# 161



Transe

quinta-feira, 11 de abril de 2013

# 160






































Josh Homme, com bengala, fotografado por Andy Willsher.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

# 159












































Miguel Gomes fotografado, em Lisboa, por Steve Stoer.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

# 158















"Jaime Ramos conhecia-a há anos, ela fora uma espécie de iluminação naquele edifício que aprendera a conhecer como a antecâmara de todas as despedidas, as que o deixavam melancólico e as que o deixavam na mesma, as que o deixavam desperto e as que lhe lembravam que havia um preço a pagar por quase nada e que muitas vezes achou preferível vender a alma se a alma fosse para ali chamada. Mas isso fora há muito tempo, quando a alma se podia dispensar temporária ou definitivamente. Agora, quase dobrados os sessenta, Jaime Ramos sabia que tinha esquecido muitas coisas, que tinha perdido muito de si, e que - no fim de contas - não tinha gozado suficientemente a vida."

sexta-feira, 5 de abril de 2013

# 157

# 156

# 155



















"it's like true love"

A expressão pertence a Dave Grohl, pessoa que teve a ideia e tornou possível a realização deste filme, assim dito num sentido mais subjectivo, e documentário, que é do que objectivamente se trata, sobre os estúdios Sound City, na Califórnia, que se mantiveram activos durante cerca de quatro décadas (1970-2011), e onde se produziram registos memoráveis do rock americano desse longo período.
Sound City é filmado em cerca de três-quartos como se de uma história de amor se tratasse, objectificada na mesa de gravação de marca Neve que viria a ser comprada por Dave Grohl, e que é hoje parte do estúdio privado do músico dos Foo Fighters, onde aliás o CD Real to Reel, complementar à existência do filme, foi produzido e cujas gravações ocuparão a restante quarta parte do DVD, mostrando a participação de convidados como Stevie Nicks, Trent Reznor, Josh Homme, e Paul McCartney, que à excepção do Beatle ajudaram a construir o legado musical dos estúdios Sound City.
Existe o amor à música, e a um som particular que se obtinha em Sound City, doce, analógico e humanizado, e depois o amor enquanto experiência que vive da interacção do factor humano. Mais do que qualquer equipamento, do que a opção posta em prática de gravar os discos com a banda a tocar ao vivo e em simultâneo, a experiência proporcionada pelos Sound City está ligada às pessoas que lá trabalhavam ou que lá gravavam: grupos como os Fleetwood Mac, Rick Springfield (que nas fotografias da época está quase sempre na companhia do cão Ronnie), Frank Black and the Catholics, Neil Young, Nirvana, ou os Queens of the Stone Age, entre dezenas de outros.


















Os Sound City, que vivenciaram, externamente, a mudança de paradigma do analógica para o digital, do vinil para o CD, e das grandes mesas de gravação para o Pro-Tools, foram sempre um lugar onde se privilegiou a música enquanto experiência colectiva, e se alguma coisa permite relativar o aspecto algo desajustado e claramente comercial do tempo que o filme de Dave Grohl gasta com o processo de gravação do CD Real to Reel (que aparenta ser média espingarda, não mais que isso), é que o mesmo visa também assinalar uma espécie de terceira vida (trasladada) dos Sound City: a segunda vida terá sido marcada no início dos anos 90 com o sucesso global de Nevermind, quando os estúdios corriam sérios riscos de encerrar. Figurada no estúdio 606 de Dave Grohl, onde pontifica a mesma mesa de gravação Neve, a que ele promete continuar a dar muito trabalho, é a defesa de um modo de produzir música que está em causa, muito pouco usual nos tempos actuais. 
A nostalgia de um objecto como este Sound City aponta ao passado e ao futuro, como qualquer história de amor digna desse sentimento.     

quinta-feira, 4 de abril de 2013

# 154


Uns dias são de brincar, outros são do brinquedo.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

# 153




Cenas da vida profissional, social, e conjugal. Que se foda o Ingmar.

# 152

"Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído."

# 151




Para escrever um parley deste nível é preciso escutar o mundo até nos tornarmos na sua cópia fiel.

# 150




















Os filhos de Dave Grohl, que têm 3 e 6 anos de idade, não lhe pedem para escutar Justin Bieber porque o pai cedo os pôs a ouvir a música que o próprio conheceu com a idade deles. Assim a preferência vai para os Beatles no geral, e o mais velho já sabe pousar a agulha no prato. Este aspecto da entrevista com Grohl que a Blitz acaba de publicar, fez-me lembrar conversa recente com um amigo que foi pai recentemente e que adormece a criança com Johnny Cash ou lullabies de várias partes do mundo: de África principalmente. É uma forma de olhar para as coisas. Quando se gosta muito de música é irresistível não ceder às modas que invadem por todos os lados e dar a conhecer aos nossos filhos música boa. Para felicidade deles: presente e futura.  

terça-feira, 2 de abril de 2013

# 149























Muitas vezes ouvimos dizer que os jogos se decidem por pormenores. É preciso acrescentar que alguns acabam definidos pelos impossíveis. Impossível não é aquilo que não acontece, mas o que não se repete.

# 148
























Foi na época de 2004/ 2005 que um jogador do Sporting fizera, pela penúltima vez, três golos em Braga. Grande noite para Mauricio Pinilla, principalmente. Partiu depois e não deixou saudades. O mesmo não poderá ser dito de Ricky van Wolfswinkel, cuja saída para o Norwich mal termine o campeonato, e em cima do desempenho de ontem, que só a trave que se lhe atravessou no caminho impediu que superasse a prestação do chileno Pinilla, já pôs os sportinguistas a pensar se não se poderia abortar o negócio com os ingleses. No way.
O Sporting nunca esteve a perder, mas pode-se falar em remontada uma vez que a equipa sofria a pressão enorme dos bracarenses, que jogavam em superioridade numérica. Ou isso pensavam eles. E nós também. Havia um elemento no banco, delegado ao jogo, um presidente no papel de adepto (não deixando de ser o presidente), que baralhou as contas e ajudou a tornar possível a vitória altamente improvável. Ninguém pareceu incomodado com a presença de Bruno de Carvalho que, tal como Wolfswinkel, cumpriu um sonho que a noite não teve condições de lhe tirar. E viva o novo velho Sporting Clube de Portugal.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

# 147

# 146

# 145

























Reencontro com o Terry Callier de muitos anos atrás. De alma e coração.

# 144




















A escolha de um título como O Pai das Minhas Filhas (2009) é todo um programa de cinema que o filme de Mia Hansen-Love confirmará na segunda metade. Quando a personagem do produtor Grégoire Canvel desaparece, apenas se extingue a figura do produtor, não o pai das crianças. A existência de Grégoire fundamentava-se, para o próprio, na existência dos filmes que produzia e que produzira. Para os que lhe eram próximos, sobretudo família e amigos, é a sua ausência que será sentida, e que no caso das três raparigas determinará uma nova relação com elas mesmas (mais sensível na filha mais velha, Clémence) e com a memória do pai. Os filmes serão objecto de um processo de liquidação e seguirão destinos diferentes e desconhecidos à razão dos vários credores. A frieza deste processo, por oposição às subtis repercussões emocionais que o desaparecimento de Grégoire irá provocar, diz-nos que o cinema de Mia Hansen-Love se coloca do lado da vida e que a importância dos filmes decorre de serem produto de vidas também. Mas que nunca poderão substituir-se a nenhuma delas.

# 143



















Quando o filme de Gus Van Sant, que aqui oferece os seus bons préstimos de realizador versátil ao serviço de um projecto pessoal do amigo Matt Damon, se encaminha para o final, e o drama social se resolve com uma lógica de rapaz perde o emprego mas ganha a rapariga, vemos confirmadas as expectativas de um cinema liberal que procura olhar o nosso mundo pelo confronto entre os interesses económicos e a responsabilidade do indivíduo, mas que cede finalmente a um propósito redentor para conforto das mais vastas plateias.
O espírito de Frank Capra baixa sobre este Terra Prometida de Damon e Van Sant, que tem também o mérito de mostrar vários bons actores a fazerem figura de gente, só que o espectador adulto, se acredita nas composições, terá mais dificuldade em crer nas recomposições. Não é questão de cinefilia mas de consciência. Os limites do filme são os limites da nossa boa consciência, que ditam até onde o conseguimos acompanhar. Tudo aquilo em que conseguimos acreditar.

# 142

"Numa entrevista recente, na Austrália, colocava a questão de forma simples. O primeiro disco havia sido concebido por alguém que nunca antes tinha experienciado o amor. O segundo é o álbum de quem vive essa experiência. Na estreia havia uma voz vulnerável, melodias luminosas, uma estrutura de canção mais enunciada do que clarificada. Agora existe mais inteligibilidade."

sexta-feira, 29 de março de 2013

# 141


Hoje, com o Público, e por um preço que é dado.

# 140



















A importância da boa decisão escapou-me da primeira vez que vi Os Descendentes. É natural. Quase sempre procuramos nos filmes aquilo que ecoa na nossa história pessoal, e é também disso que trata esta realização de Alexander Payne. A boa decisão apresenta-se, pelo contrário, no que transcende o homem e a sua passagem pela vida. Decorre no entanto da dádiva da vida, algo que nos foi confiado e com o qual lidamos tantas vezes de forma egoísta. Isto conduz à reflexão de Matt (George Clooney) sobre os elementos da sua família, simbolizados por ilhas de um mesmo arquipélago, isoladas e progressivamente mais distantes umas das outras.
Só que as pessoas partem, como Elizabeth após o coma, e as ilhas, a terra permanece(m) para ser desfrutada por outros e por outras famílias. A construção de Os Descendentes vai das consequências do isolamento, à tomada de consciência que leva à boa decisão (a de Matt em não vender os terrenos que num passado remoto tinham ficado à responsabilidade da sua família), até á reconciliação aparente com as filhas no momento do luto.
O carácter banal da cena final, com os três (pai e filhas) na frente do televisor a comerem gelado, parece sugerir que o filme terminara sim com a boa decisão de Matt: a única que perdura além das gerações vivas em benefício de muitas gerações vindouras, e em respeito por quem veio antes. Os Descendentes faz-se com os elementos de muitos outros filmes dramáticos seus semelhantes, mas não devemos perder o sentido do real alcance. O do indivíduo que consegue ver mais para lá dos próprios dramas. É essa a nossa única decisão.

# 139































O disco, que é muito bom disco, é para aí do tempo em que a classificação de "americana" alimentava conversas entre maluquinhos da música e fazia capas de revistas. De Ryan Adams, não fosse a aparição nos derradeiros instantes do último Judd Apatow, também se perdera o rasto. Parece que a "americana" acabou confinada à geografia de baptismo. Mas isto continua a ser muito bom mesmo.

quarta-feira, 27 de março de 2013

# 138






















O meu chapéu, porque não busco postura sensacionalista, para Lena Dunham e o risco que tomou nos últimos episódios da segunda temporada de Girls. O disturbio obsessivo-compulsivo da protagonista apanha-nos de surpresa e não é tratado com ligeireza. Dunham desafia-se enquanto criadora e actriz, e até ver o espanto é aquilo com que ficamos. Pelo menos desta vez não deixa a personagem sozinha, e a corrida de Adam em tronco nu pelas ruas de Brooklyn é coisa bonita de se ver. E o colo no final, Uau.

# 137
























Like Clockwork. Junho 2013. \m/

# 136

















Ontem tive a excelente notícia de que o novo disco de June Tabor sairá pela ECM. Sairá não, saiu já, há cerca de duas semanas, sob a designação Quercus. A arte de Tabor e dos músicos que a acompanham ganhará mundo com a ECM que tem distribuição alargada a toda a Europa, Estados Unidos e Japão. Espero que seja este o ano ou o próximo em que June Tabor nos volte a visitar. Escutem aqui e agora a canção, exemplo entre dezenas, mas escutem sobretudo a introdução que Tabor faz da mesma. É sempre assim nos seus concertos. Um privilégio interpretativo e um privilégio... interpretativo. Long live June Tabor.

# 135































"A primeira vez que isso acontecera: 8 de abril de 2003. Um céu limpo e azul, o vento de uma primavera que tardava em atravessar as baías do mar galego. O homem parou o carro junto do muro, ao lado da árvore mais alta, diante daquela paisagem de Turner."


Jaime Ramos voltou.

# 134

# 133



















Trata-se de imagem batida mas seguramente aquela que ocorre ao maior número de pessoas que assistam a uma actuação de Jon Hassell. Estamos perante um encantador de serpentes. Alguém que seduz com os elementos repetitivos e hipnóticos guardados nos computadores em ficheiros prontos a activar, e que deixa a plateia num estado entre o fascínio e o torpor, sendo que o hipotético adormecimento pode resultar da descontração que acompanha o expandir da percepção auditiva e da imaginação. Viaja-se muito dentro de nós num concerto de Jon Hassell. Até mesmo os ocasionais pregos digitais não distraem do principal. O fluxo sonoro comandado pelo inconfundível timbre do trompete filtrado pelas electrónicas, que responde tanto a imperativos musicais como biológicos. Como ouvi comentar é um sopro que dá vida. Foi uma vez mais o que aconteceu. Quiçá a celebração da música de Gil Evans que nos era proposta. Sem dúvida a celebração de Jon Hassell em muito serena resposta.

# 132

"Mas era precisamente o fraco quem devia saber ser forte e partir quando o forte se encontrava demasiado fraco para poder sequer ofender o fraco."

terça-feira, 26 de março de 2013

# 131

jon hassell. stop. sketches of the mediterranean. stop. celebrating gil evans. stop. hoje. stop. teatro maria matos sala principal. stop. 22 horas. play.

# 130




Da democracia nas leituras.

# 129


A pergunta é quantas canções terão os Go Betweens escrito com base nos acordes de The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest.

segunda-feira, 25 de março de 2013

# 128




Do meu Sporting para o meu Tottenham.

Arquivo do blogue