sexta-feira, 10 de maio de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
# 200
Descobri William Basinski com este CD e numa loja de discos que já não existe, a Ananana. O som ali presente levou a outros registos semelhantes que deixaram grilada a minha companheira da altura, que achava estranho eu escutar este tipo de música, extra-terrestre como ela caracterizava.
Anos mais tarde, fui encontrar William Basinski no único concerto a que assisti no Barreiro. Era o Out.Fest, e eu tinha-me tornado num seguidor da drone music. Cheguei a ter todos os discos de Basinski, o que foi deixando de ser verdade por circunstâncias da vida, diferentes maneiras de pensar e de orientar os interesses, e algumas mudanças de casa. A música que William Basinski levou à outra margem veio a entrar num outro disco, que também conservo ainda.
O concerto do Barreiro foi memorável e recordo até detalhes, como a imagem projectada de nuvens que pareciam imóveis mas que se iam transformando com a cadência das quase imperceptíveis mudanças no som introduzidas pela troca de fitas magnéticas, algumas que terão perdido o seu total aproveitamento naquela noite. Esta dimensão de se trabalhar com material altamente perecível liga-se à componente poética do trajecto de Basinski, onde o papel do músico é essencialmente o de reproduzir e transformar os sons criados pelo próprio ou por outros, até que neles se manifeste somente o fantasma da sua origem. Um pouco como olhar um conjunto de fotografias antigas de gente que não se conhece mas que nos interpela como um rosto sempre interpela aquele que o olha.
E agora, Nocturnes.
A mesma sensação de progressiva imersão, que ao vivo sai sempre intensificada, como poderão comprovar os que forem no próximo sábado encontrar Basinski no Teatro Maria Matos. Encontro imediato de um grau que tem os contornos vastos do subconsciente, aliado ao carácter impermanente da consciência. A música e as imagens de William Basinski voltarão a abrir-se para por elas entrarmos com aquilo que levarmos para esse momento.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
# 196
Demasiada realidade. Demasiadas semelhanças. Pegue-se no 8º episódio da 2ª temporada da série The Wire, a menos apreciada, vá-se lá saber por quê. Escrito por George P. Pelecanos. A cabeça de Jimmy McNulty é o que me interessa esmiuçar. Jimmy pensa que quer voltar para a ex-mulher, mãe dos seus dois filhos, mas ela não acredita que ele se tenha modificado. Que tenha deixado de beber de mais e de ir para a cama com outras mulheres. No início do episódio, Jimmy McNulty espatifa o carro uma vez e teimosamente procura fazer a mesma curva só para embater de novo na coluna de cimento que já lhe havia colocado a porta dentro e agora arranca mais um pouco de pintura. Entra depois numa cafetaria, a rapariga que o serve repara no distintivo, insinua um convite e acabam a madrugada aos encontrões na cama dela.
Jimmy será recolocado na equipa de combate ao narcotráfico que se encontra a vigiar a zona portuária de Baltimore. No fim de um dia de trabalho pergunta aos dois outros elementos na sala se querem tomar um copo antes de seguirem para casa. O homem, Lester, passa o convite mas a mulher, Beadie, aceita a pretexto da boleia de McNulty: o carro dela está na oficina. No bar McNulty faz uma chamada para a casa de prostituição onde terá de se infiltrar. Quando a madame lhe pergunta qual o tipo de mulher que ele procura, Jimmy olha à distância para Beadie. Minutos mais tarde, Beadie convida-o a tomar uma última cerveja na casa dela. A presença dos filhos sente-se por toda a casa, quer eles lá estejam ou não. McNulty inspecciona os brinquedos espalhados pela sala, as fotografias coladas na porta do frigorífico, e tudo lhe soa demasiado familiar. O mesmo homem que víramos ser cavalgado pela empregada de mesa no início do episódio, sairá da casa da colega polícia sem que nada aconteça entre eles. Jimmy não está preparado para substituir a vida que tinha por algo semelhante. Aquilo que deseja, se é que ele sabe o que na realidade quer, pode ter deixado de ser o que teve, não sendo também aquilo que tem tido. McNulty encontra-se num limbo onde existem muitos como ele. O título do episódio é Duck and Cover.
Jimmy será recolocado na equipa de combate ao narcotráfico que se encontra a vigiar a zona portuária de Baltimore. No fim de um dia de trabalho pergunta aos dois outros elementos na sala se querem tomar um copo antes de seguirem para casa. O homem, Lester, passa o convite mas a mulher, Beadie, aceita a pretexto da boleia de McNulty: o carro dela está na oficina. No bar McNulty faz uma chamada para a casa de prostituição onde terá de se infiltrar. Quando a madame lhe pergunta qual o tipo de mulher que ele procura, Jimmy olha à distância para Beadie. Minutos mais tarde, Beadie convida-o a tomar uma última cerveja na casa dela. A presença dos filhos sente-se por toda a casa, quer eles lá estejam ou não. McNulty inspecciona os brinquedos espalhados pela sala, as fotografias coladas na porta do frigorífico, e tudo lhe soa demasiado familiar. O mesmo homem que víramos ser cavalgado pela empregada de mesa no início do episódio, sairá da casa da colega polícia sem que nada aconteça entre eles. Jimmy não está preparado para substituir a vida que tinha por algo semelhante. Aquilo que deseja, se é que ele sabe o que na realidade quer, pode ter deixado de ser o que teve, não sendo também aquilo que tem tido. McNulty encontra-se num limbo onde existem muitos como ele. O título do episódio é Duck and Cover.
terça-feira, 7 de maio de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
# 193

É possível que aquilo que mais me tenha impressionado em Away We Go/ Um Lugar para Viver (2009) seja o facto de ser tão desprovido de cinismo, a ponto de não recordar de repente outro filme que se lhe compare. O casal interpretado por John Krasinski e Maya Rudolph espera um filho e face à impossibilidade de ficarem com a casa dos pais dele, que será alugada mal estes partam por um par de anos para a Europa, viajará pelos Estados Unidos e Canadá, visitando familiares e amigos, em busca do melhor lugar para prosseguirem com a vida. Existe uma ou outra personagem cínica no filme de Sam Mendes, pais de família cuja funcionalidade mais ou menos excêntrica obedece a um programa que o filme põe a claro sem carregar no julgamento ou na demagogia. Burt (Krasinski) e Verona (Reynolds) são pessoas normalíssimas, adultos de trinta e poucos anos que se sentem inseguros em relação às suas capacidades e àquilo que obtiveram na vida, ele mais acriançado e carinhoso, ela nada seduzida com a ideia de ambos casarem, sem que no entanto isso signifique que os seus sentimentos por Burt sejam inferiores. O equilibrio da relação resulta de os dois serem pessoas equilibradas, um pouco cândidas mas não tansas, que se manterão firmes no propósito de encontrar o lugar apropriado para criarem uma família. Agora que por aí começou a circular um cartaz que apresenta a anatomia feminina significada por dois parêntesis curvos, encimada pela frase "forget about love", dá vontade de contrapor a discreta existência do filme de Sam Mendes de há quatro anos, justamente para dizer "remember what love is". Como se o amor fosse o oposto do cinismo ou a possibilidade de lhe resistirmos, reforçado também porque cantado (em cima do que é contado) por um trovador de hoje da estirpe de Nick Drake, que Sam Mendes veio a descobrir em Alexi Murdoch, autor das canções que pontuam todas as deslocações até à chegada definitiva.
# 192
Não me parece que exista leitura de segundo grau num filme como Spring Breakers/ Viagem de Finalistas. Aquilo é o que é: pulp fiction hiperrealista com estudantes de bikini que visa apenas a excitação dos sentidos, uma vez que todo o reverso moral assenta num acumular de inverossimilhanças. Talvez Harmony Korine tenha mudado de mentor. De Werner Herzog passou-se para Oliver Stone. Ou talvez tenha apenas querido fazer dinheiro com este filme.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
quinta-feira, 2 de maio de 2013
# 187
Do que gostei de verdade no novo filme de Robert Redford (n. 1936) foi ele se ter filmado aos sessenta e muitos anos (idade da personagem) com uma filha de onze: tema eastwoodiano, na vida e no cinema, que True Crime (1999) mostrou com superior verve. O resto de Regra de Silêncio não me parece que justifique tirarmos o corpo do sofá, e a própria questão da paternidade tardia só comoverá alguns.
# 186
Distraí-me a contar o número de pessoas que não enchiam a sala de concertos da ZDB (Zé do Boogie por uma noite) para ver Endless Boogie. Estariam no limite umas cem. A 8 euros o bilhete e imaginando o provável cenário da divisão de bilheteira entre os músicos e a casa, que irrisório seria o cachet da banda. Depois quando o vocalista e guitarra solo “Top Dollar” se pôs a elogiar a cozinha portuguesa que acabavam de conhecer, e o quanto a comida era importante para os elementos dos Boogie, concluí que eles tocariam até a troco de uma boa refeição, o que só faz quem está na música por paixão (o recente CD Long Island era vendido a 10 euros) e não por carreira. Os Endless Boogie tocaram com paixão e encheram-nos a barriga.
terça-feira, 30 de abril de 2013
# 184
"... prometo desiludir-me contigo e só contigo; prometo fazer de ti o único repositório dos meus pesares, em vez de os distribuir por vários casos extraconjugais e por uma vida de Don Juanismo sexual; analisei as diferentes opções para ser infeliz e foi contigo que escolhi comprometer-me. É este o tipo de promessas generosamente pessimistas e gentilmente pouco românticas que os casais deviam fazer..."
# 183
Não foi unicamente a experiência do amor que aconteceu na vida de James Blake entre o seu primeiro CD homónimo e agora Overgrown. O amor e a distância podem dar conteúdo lírico ao disco novo mas o que de mais notório sucede, sucede a nível puramente instrumental. É como se a primeira edição, James Blake (2011), funcionasse como ecografia onde se observava o organismo que aqui reconhecemos. James Blake é actualmente um artesão mais confiante, muito por obra dos concertos que deu e dos artistas que encontrou, em trabalho, e os que lhe validando o talento vieram com ele ter. A base musical de Overgrown continua situada entre o gospel branco e a electrónica dubstep, caracterizada por uma série de ecos e texturas que nunca favorecem a imagem definitiva, preferindo-lhe o seu reflexo, o seu fantasma. Esta abertura ao mundo da parte de James Blake faz de Overgrown um disco mais expansivo, com maior número de camadas instrumentais, batidas mais sensíveis nem sempre em desacelerando, uma música que não chega a empurrar o corpo para dançar, mas que nos convoca para uma audição mais desperta e activa. A voz de Blake perdeu também alguma timidez, tendo que fazer-se notar em ambientes saturados de acordes e percussões. A raiz emocional é no entanto (exactamente) a mesma de sempre. James Blake continua a gerir com grande sensibilidade as micro-nuances emocionais das suas canções, e acaba por ser esse o elo que nos liga a cada uma delas, sejam mais despojadas ou dinâmicas. Overgrown acrescenta vida e experiência ao trabalho artístico de Blake, o que é de todo natural e tanto mais expectável quando se trata de um jovem adulto em quem o mundo pôs os olhos e ouvidos, e que nos devolve hoje a cortesia. Overgrown concentra todo o James Blake, músico e indivíduo.
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