segunda-feira, 6 de maio de 2013

# 193















É possível que aquilo que mais me tenha impressionado em Away We Go/ Um Lugar para Viver (2009) seja o facto de ser tão desprovido de cinismo, a ponto de não recordar de repente outro filme que se lhe compare. O casal interpretado por John Krasinski e Maya Rudolph espera um filho e face à impossibilidade de ficarem com a casa dos pais dele, que será alugada mal estes partam por um par de anos para a Europa, viajará pelos Estados Unidos e Canadá, visitando familiares e amigos, em busca do melhor lugar para prosseguirem com a vida. Existe uma ou outra personagem cínica no filme de Sam Mendes, pais de família cuja funcionalidade mais ou menos excêntrica obedece a um programa que o filme põe a claro sem carregar no julgamento ou na demagogia. Burt (Krasinski) e Verona (Reynolds) são pessoas normalíssimas, adultos de trinta e poucos anos que se sentem inseguros em relação às suas capacidades e àquilo que obtiveram na vida, ele mais acriançado e carinhoso, ela nada seduzida com a ideia de ambos casarem, sem que no entanto isso signifique que os seus sentimentos por Burt sejam inferiores. O equilibrio da relação resulta de os dois serem pessoas equilibradas, um pouco cândidas mas não tansas, que se manterão firmes no propósito de encontrar o lugar apropriado para criarem uma família. Agora que por aí começou a circular um cartaz que apresenta a anatomia feminina significada por dois parêntesis curvos, encimada pela frase "forget about love", dá vontade de contrapor a discreta existência do filme de Sam Mendes de há quatro anos, justamente para dizer "remember what love is". Como se o amor fosse o oposto do cinismo ou a possibilidade de lhe resistirmos, reforçado também porque cantado (em cima do que é contado) por um trovador de hoje da estirpe de Nick Drake, que Sam Mendes veio a descobrir em Alexi Murdoch, autor das canções que pontuam todas as deslocações até à chegada definitiva.    

# 192

Não me parece que exista leitura de segundo grau num filme como Spring Breakers/ Viagem de Finalistas. Aquilo é o que é: pulp fiction hiperrealista com estudantes de bikini que visa apenas a excitação dos sentidos, uma vez que todo o reverso moral assenta num acumular de inverossimilhanças. Talvez Harmony Korine tenha mudado de mentor. De Werner Herzog passou-se para Oliver Stone. Ou talvez tenha apenas querido fazer dinheiro com este filme.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

# 191


© Cambria Harkey

# 190




"what really keeps the wolves of loneliness at bay is probably not sex, but intimacy"

# 189

# 188



Sobre a beleza do gesto, o momento em que o balão de whisky surge no enquadramento aos 2 minutos e 16 segundos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

# 187


















Do que gostei de verdade no novo filme de Robert Redford (n. 1936) foi ele se ter filmado aos sessenta e muitos anos (idade da personagem) com uma filha de onze: tema eastwoodiano, na vida e no cinema, que True Crime (1999) mostrou com superior verve. O resto de Regra de Silêncio não me parece que justifique tirarmos o corpo do sofá, e a própria questão da paternidade tardia só comoverá alguns.

# 186

























Distraí-me a contar o número de pessoas que não enchiam a sala de concertos da ZDB (Zé do Boogie por uma noite) para ver Endless Boogie. Estariam no limite umas cem. A 8 euros o bilhete e imaginando o provável cenário da divisão de bilheteira entre os músicos e a casa, que irrisório seria o cachet da banda. Depois quando o vocalista e guitarra solo “Top Dollar” se pôs a elogiar a cozinha portuguesa que acabavam de conhecer, e o quanto a comida era importante para os elementos dos Boogie, concluí que eles tocariam até a troco de uma boa refeição, o que só faz quem está na música por paixão (o recente CD Long Island era vendido a 10 euros) e não por carreira. Os Endless Boogie tocaram com paixão e encheram-nos a barriga.

terça-feira, 30 de abril de 2013

# 185

# 184

"... prometo desiludir-me contigo e só contigo; prometo fazer de ti o único repositório dos meus pesares, em vez de os distribuir por vários casos extraconjugais e por uma vida de Don Juanismo sexual; analisei as diferentes opções para ser infeliz e foi contigo que escolhi comprometer-me. É este o tipo de promessas generosamente pessimistas e gentilmente pouco românticas que os casais deviam fazer..."

# 183

























Não foi unicamente a experiência do amor que aconteceu na vida de James Blake entre o seu primeiro CD homónimo e agora Overgrown. O amor e a distância podem dar conteúdo lírico ao disco novo mas o que de mais notório sucede, sucede a nível puramente instrumental. É como se a primeira edição, James Blake (2011), funcionasse como ecografia onde se observava o organismo que aqui reconhecemos. James Blake é actualmente um artesão mais confiante, muito por obra dos concertos que deu e dos artistas que encontrou, em trabalho, e os que lhe validando o talento vieram com ele ter. A base musical de Overgrown continua situada entre o gospel branco e a electrónica dubstep, caracterizada por uma série de ecos e texturas que nunca favorecem a imagem definitiva, preferindo-lhe o seu reflexo, o seu fantasma. Esta abertura ao mundo da parte de James Blake faz de Overgrown um disco mais expansivo, com maior número de camadas instrumentais, batidas mais sensíveis nem sempre em desacelerando, uma música que não chega a empurrar o corpo para dançar, mas que nos convoca para uma audição mais desperta e activa. A voz de Blake perdeu também alguma timidez, tendo que fazer-se notar em ambientes saturados de acordes e percussões. A raiz emocional é no entanto (exactamente) a mesma de sempre. James Blake continua a gerir com grande sensibilidade as micro-nuances emocionais das suas canções, e acaba por ser esse o elo que nos liga a cada uma delas, sejam mais despojadas ou dinâmicas. Overgrown acrescenta vida e experiência ao trabalho artístico de Blake, o que é de todo natural e tanto mais expectável quando se trata de um jovem adulto em quem o mundo pôs os olhos e ouvidos, e que nos devolve hoje a cortesia. Overgrown concentra todo o James Blake, músico e indivíduo.   

# 182



Momentos de glória.

sábado, 27 de abril de 2013

# 181

# 180


Tudo acaba. To be concluded.

# 179















Feministas deste nosso planeta culpado e esclarecido, fujam do filme. Quenianos do mundo inteiro, meus irmãos de corpo completo, uni-vos. Não mais se entreguem ao papel de paus-mandados, por muito que isso pouco vos custe. Isto foi o melhor filme deste IndieLisboa até ver. Até que alguém alcance mais além das fronteiras do politicamente incorrecto que o austríaco Ulrich Seidl. Fiquei fã.

Aviso: este filme tem fitinha cor-de-rosa.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

# 178




















"Thunder only happens when it's raining/ Players only love you when they're playing"

Do último lote de aquisições: Fleetwood Mac, Rumours (um regresso), Roy Orbison, In Dreams, Gorillaz, Demon Days (a Mojo diz que é o melhor disco que Damon Albarn alguma vez fez...), The Neville Brothers, Yellow Moon, Nick Cave & the Bad Seeds, Kicking Against the Pricks.

terça-feira, 23 de abril de 2013

# 177

# 176

# 175

























"I have met men in jail with style
I have met more men in jail with style
than men out of jail
Style is a difference, a way of doing,
a way of being done
Six herons standing quietly in a pool of water,
or you, walking out of the bathroom naked without seeing me"

As palavras de Bukowski de que este retrato de Ben Gazzara (1930-2012) se apropria - ele que fez de Bukowski no cinema, com Marco Ferreri - caracterizam uma ideia de estilo que se confunde com o talento que se confunde com a arte de viver. Gazzara conta no início o primeiro contacto que teve com a morte quando muito jovem viu um amigo desaparecer acidentalmente nas águas do Hudson. No momento decisivo, anos mais tarde, não hesitou e atirou-se para uma breve carreira no teatro que logo passou para a televisão e o cinema onde pagavam mais. O dinheiro ajuda a arte de viver. Ajuda saber gastá-lo com estilo. Viver com estilo, no cinema e fora dele. O estilo de Gazzara nasce da persona que criou em cima da sua timidez, onde se sentia seguro a desafiar o risco, embora controladamente. Teve longa vida e trabalhou até ao fim. Regressou do outro lado quando esteve como morto por três minutos (num pós-operatório) e diz que não se vê nenhuma luz branca. Provavelmente a morte é que terá ficado ofuscada com o seu brilho. É próprio do estilo sugar a luz em volta. Se virem este filme assistirão ao modo como Gazzara, de uma lucidez incrível e com uma vitaliade surpreendente para quem no final da vida ia buscar oxigénio a um pulmão apenas, ilumina as ruas de Manhattan por onde caminha à conversa com Joseph Rezwin, autor do projecto que conheceu Ben Gazzara a filmar com Casssavetes Opening Night (1977). E Ben Gazzara, o sedutor, que não tinha tempo para se envolver com actrizes porque o chamavam constantemente para filmar (segundo ele era o seu motorista que tinha o proveito), e que viveu os últimos 30 anos sempre com a mesma mulher, muitas horas de todos os dias. Que melhor definição de estilo que a descrição daquela relação (feita por ela, Elke Gazzara) de mais de três décadas? Central "part".  

 Passa sexta-feira na Cinemateca como parte da secção "director's cut" do IndieLisboa.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

# 174

"There is not really any other way for Simon to be with people, or to be in the world: he is fixated on the physical, both pleasurable and violent, to the exclusion of all else. This is how he expresses his dominance, how he understands his own masculinity. But this way of being is never excused, sentimentalized, or glorified in the film."

Excelente texto de alguém que valerá a pena seguir.