terça-feira, 19 de março de 2013
sexta-feira, 15 de março de 2013
# 111
São finitos os caminhos do corpo. O corpo cansa-se e o corpo cansa-nos. Mas é também o corpo que fala quando não queremos ou não sabemos o que dizer. É como se existíssem dois filmes dentro do filme Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard. O que trata dos corpos dos protagonistas - homem e mulher - nos seus excessos e limitações. Corpos que aprisionam por histórias passadas: a dele, homem em fuga, trazendo desta vez consigo o filho criança; a dela, cuja amputação em consequência de um acidente obriga ao regresso à vida. O segundo filme diz respeito à ficção, ao lado romanesco que aproximará as duas personagens. Parece-me que esta dimensão é empobrecedora da primeira, por vezes a raiar o implausível. Mesmo que nos socorramos da célebre frase de Blaise Pascal, trazida recentemente a público por um mister do futebol, de que o coração tem razões que a própria razão desconhece, faria mais sentido para mim que o crescimento emocional daquela mulher, Stéphanie (a universal Marion Cotillard), a fosse progressivamente afastando do cúmplice e amante sempre "opé", Alain (o flamengo Matthias Schoenaerts), do que aquilo que o filme vem a mostrar. Uma cedência do coração de Jacques Audiard, e uma limitação como as do corpo. Bom filme quand même.
quinta-feira, 14 de março de 2013
# 110
"... I came across an endearing fact about the Danish government. Its Ministry of Justice is to introduce a bill that «specifies that keepers of horses should have at least two horses ... to recommend that horses have social contact». Some veterinary research had showed that horses not only like to see each other, but to touch each other. Horses are herd animals, experiencing an inconsolable misery when alone that only another of their kind can assuage. They scratch each other in places hard to reach, and stand nose-to-tail in the summer in a symbiotic arrangement so that each tail flicks flies off the nose of the other."
quarta-feira, 13 de março de 2013
# 108
Na extraordinária vida de Bob Dylan, felizmente em curso, nada aconteceu por acaso. Esteve sempre onde quis estar, a fazer o que queria, alheio ou, no mínimo indiferente, à constituição do mito em que se tornou. No acumulado de feitos, públicos e privados, o percurso é irrepetível. O homem não se deslumbrou: foi fazendo, e fazendo, e fazendo. Foi fazendo.
# 107
E acordámos na formulação própria de quem foi copy de que nas relações a opção é entre namorar por conta de outrem ou ser freelancer amoroso.
# 105
"Essa «pancada na cabeça» pode ser uma mudança súbita, um «acontecimento» que muda tudo, como a Ressurreição ou o Blonde on Blonde; mas também pode ser uma continuidade, um estado de fortaleza contra o medo e a pequenez do mundo."
terça-feira, 12 de março de 2013
# 104
ele é cientista! ele é domador!
"Criei uma ciência no futebol. Sou um treinador que pensa a estrutura"
"Ola John chegou aqui em estado selvagem"
"Ola John chegou aqui em estado selvagem"
Jorge Jesus
(um post da autoria de João Navarro!)
segunda-feira, 11 de março de 2013
# 103
Chegou ao fim a Odisseia. Vi grande parte da série clandestino no local de trabalho, e perdi a noção de que teria sido o último episódio. Tudo acaba então com os regressos de Gonçalo para a mulher que o abraça com pernas e braços depois dele lhe entregar umas flores apanhadas provavelmente no jardim mais à mão, e o de Bruno a uma casa vazia cujo silêncio é interrompido com um telefonema para a mãe que o receberá para jantar. Não seria Odisseia de verdade se não houvesse uma Penélope a aguardar a chegada dos heróis. Numa Odisseia moderna é por vezes à mãe que cabe o papel, sinal realista de uma narrativa que se entregou a muitos delírios. O final da Odisseia marca portanto um regresso à realidade. Os rapazes portaram-se bem: foram sempre bons rapazes. Haverá aqui alguma coisa a tirar para toda a gente. O espírito de aventura deixa saudades.
# 101
"We chat and we have 'buddies' to chat with. Buddies, as every chat addict knows, come and go, switch in and out - but there are always a few of them on the line itching to drown silence in 'messages'. In the 'buddy-buddy' sort of relationship, not messages as such, but the coming and going of messages, the circulation of messages, are the message - don't mind the content. We belong - to the even flow of words and unfinished sentences (abbreviated, to be sure, truncated to speed up the circulation). We belong to talking, not to what is talked about."
# 100
Há neste filme uma criança que não gosta de dormir porque tem medo do que possa vir a sonhar. Mas Side Effects/ Efeitos Secundários, de Steven Soderbergh, não é sobre esta criança que é inocente em relação aos seus temores. É sobre todos nós, adultos, a nossa culpa e responsabilidades na fuga à realidade que preferimos deturpada pelos estímulos à tipologia de consumo que corresponde a um sonho desperto. Os antidepressivos entram aqui e estão cada vez mais disseminados porque nos agarramos a expectativas e a estatutos, e quando os acontecimentos escapam ao controlo e fracassamos, a depressão logo se instala. Isto está no filme de Soderbergh, problematizado como se um excesso de presente nos roubasse a perspectiva de futuro. É o comentário social e político sobre o mundo contemporâneo tão do desagrado de Steven Soderbergh, que aqui felizmente não se limita à denúncia por via do exercício de estilo de sobrolho levantado e apresenta uma intriga criminal, actualizando elementos do film noir, que fixa o interesse, doseando bem as sucessivas revelações e de modo a que o comentário político esteja subjacente em todo o processo. O Soderbergh engajado de quase sempre mas que desta vez tem uma história para contar e um vilão que podia ser o nosso vizinho do lado. Efeitos secundários entendem-se no filme pelas consequências dos nossos actos e a bula nunca está completa.
# 99
A segunda vida de Paul Simon marca praticamente o início da minha. O que marca a minha segunda vida não tem resposta prática.
sexta-feira, 8 de março de 2013
quinta-feira, 7 de março de 2013
# 94
Vamos pensar que o homem olha para a imagem e repara primeiro na beleza da mulher. Que uma mulher vê a mesma fotografia e nota a princípio a força do homem. Consideremos tratarem-se dos apelos mais comuns para ambos os sexos, sem desmerecer da beleza dele ou de outros traços que a personagem feminina possa ter mas que não conhecemos ainda. A imagem dirige-se a uma concepção do mundo arquetípica (homem-forte, mulher-bela), em cima da qual se erguem ficções. O modelo é aquilo que permanece e o que diz mais de cada um de nós. É por ali que existimos nos filmes que nos interessam. Que antecipamos filmes que nos podem interessar. Objectos que pela universalidade enraizada nos justificam. Por acaso reparo primeiro na força do homem, porque a minha preocupação fundamental é com a mulher que olha para a imagem e menos com a actriz que nunca poderá verdadeiramente substituí-la.
quarta-feira, 6 de março de 2013
# 91
A aquisição em exclusivo, por parte da Benfica TV, dos direitos de transmissão dos jogos da Premier League nas próximas três temporadas criou um sarilho a que os milhões de adeptos benfiquistas não estão imunes, mas que aos restantes milhares fará mossa ainda maior. A Zon já me informou ao telefone que o canal passará a constar da sua lista de opções e será pago. E a Sport Tv tendo perdido tão precioso trunfo estará disposta a reduzir a mensalidade? E que interesse terá para um não-benfiquista (ainda somos uma imensa minoria) a Benfica TV à parte dos jogos do campeonato inglês? Prevejo muita confusão e desmobilizações contrariadas para o canal encarnado. Como resolverão eles, numa única posição, a simultaneidade das partidas? E os comentadores dos jogos ingleses que trabalham para a Sport TV; arranjará a Benfica TV profissionais de calibre semelhante? As leis do mercado produzem por vezes efeitos aberrantes. O direito de escolha é aqui merdosa ilusão. Se a Benfica TV criasse um sub-canal para o futebol inglês, de assinatura autónoma, tudo se arranjava (e com diferidos, tal como no canal que a Sport TV dedica em exclusivo e em inglês à melhor liga), mas eles não estão para isso tenho a certeza.
# 90
"Há gente de todas as classes. Há slogans e alguma música, mas a esmagadora maioria da manifestação é uma manifestação silenciosa, que não adere a gritos nem a palmas. Muitos vieram sozinhos e é difícil gritar sozinho. Não vieram no grupo do sindicato, nem da empresa, nem sequer com amigos. Vieram, porque acharam que não podiam deixar de vir."
terça-feira, 5 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
# 85
Sobre O Grande Medo do Pequeno Mundo disse Pedro Mexia o que a maior parte de nós não seria capaz de dizer. O texto é muito bom (pode ser lido no facebook de Samuel Úria a dia 24 de Fevereiro) e inibe de acrescentar mais alguma coisa. Acrescentarei breves linhas. Na voz de Samuel Úria o que ele canta e o modo como explora as suas limitações vocais, acentuando-as, um pouco como Bob Dylan também fazia e faz, quase a roçar a caricatura do que entendemos por vozes (Johnny Cash e Frank Sinatra tinham grandes vozes), é o mais importante. Este é um disco cheio de carácter, com uma produção que se preocupa em dar a escutar os instrumentos e as palavras, que promove a escuta íntima e atenta. Um disco que fala dos medos universais, como o amor a morte e a insignificância, enunciados com termos que cairam e desuso, e explorando paradoxos e jogos de linguagem que trocam a toada sofrida pela discreta celebração. O Grande Medo do Pequeno Mundo não dá parte fraca e não tem partes fracas.
sexta-feira, 1 de março de 2013
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
# 80
Girls é uma série onde as raparigas se ligam umas às outras e os homens que andam por lá é porque são namorados, amigos ou amantes delas, e acima de tudo nunca até ao sexto episódio da segunda temporada tínhamos assistido, se bem me recordo, a um momento de "male bonding" como o protagonizado por Ray e Adam, que apanham o barco para Staten Island para devolver um cão. Isto só é relevante porque quando personagens masculinas se ligam entre si, aumenta a possibilidade do olhar do espectador homem se transferir de fora para dentro da ficção, experimentando a ilusão de não mais se sentir um elemento exterior à série. Gosto de Girls, mas até aquele momento tinha-me visto como um espião ou um observador distanciado. Agora já tenho a minha personagem: lá dentro e cá fora.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
# 75
A autora diz-nos que mais cedo ou mais tarde todas as relações "sabem a frango". Não está em causa a opinião de Sarah Polley, que vale o mesmo que outras. Podia era não ser defendida com cinema de aviário.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
# 72
Judd Apatow (n. 1967) é de há tempos para cá um farol da comédia cinematográfica americana, que gerou sucedâneos que nunca se assemelham verdadeiramente com os seus filmes. Os filmes de Apatow é que fazem lembrar outros: de Hal Ashby, Robert Altman ou Henry Jaglon. Filmes que são como que variações sobre a vida real dos autores, dos actores, de toda a gente que rodeia a gente do cinema. This is 40 não é muito inspirado, evolui por movimentos concêntricos até construir o puzzle familiar, e nos seus cerca de 134 minutos (a duração é também aqui chave) tem tempo para ir conquistando os que nele se revejam. Saí satisfeito.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
# 70
And the Oscar for Best Picture goes to...
But should have gone to...
The Oscar is a hard learner and doesn't give a damn' about us.
# 68
"Seria bom que os jovens fossem apoiados e suportados por jogadores de referência. O que está a acontecer é que são os mais novos que estão a suportar a equipa. Faltam os tais pilares de referência que sustentam a equipa. Mas a entrega dos mais novos é espantosa. A minha esperança é que, a cada jogo, os miúdos sejam mais competitivos e seguros."
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
# 63
Podia ser filme não fosse bem real e ouvido da boca de um dos protagonistas. Quando o pai pegava na carrinha para levar o míúdo que competia em motocrosse, se o filho notava que ele acordara cansado perguntava-lhe somente "Creedence?", carregava no play, e seguiam viagem.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
# 62
O homem que somos define-se pelo momento presente e como o presente permanentemente se actualiza não devemos pensar que somos mais do que fomos nem menos do que podemos ser.
# 61
Nick Cave e a sua mulher Susie Bick, fotografados por Dominique Issermann. A intimidade encenada só protege quem se mostra, nunca quem vê.
# 60
Como é que um mundo onde o facto essencial é sobreviver pode parecer mais simples que o nosso? "Everything is food for something else." Exactamente por ser um mundo reduzido ao essencial, que condiciona um pacto que une os poucos que por ali andam. Sem a futilidade dos questionamentos demorados e das escolhas infinitas, onde todas as decisões se ligam à preservação da vida face à ameaça da morte. Um mundo estranho, completamente fora deste mundo de segurança, conforto, e capricho. No pré-apocalipse é que é difícil viver.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
# 59
Anda por aí uma canção deste rapaz com o Manuel Cruz dos Ornatos, que fala de homens que choram, que é uma jóia. A fotografia, tirada por Rita Carmo tempos atrás, foi a melhor que encontrei do Samuel Úria.
# 58
Depois de escutado compro totalmente a ideia de que este álbum acabou sendo influenciado pela permanência de Dave Grohl junto dos Queens of the Stone Age. Pode-se mesmo especular que a participação do músico nas gravações de Songs for the Deaf influenciou a decisão de gravar de novo e rapidamente One by One. E do som às letras somos sugestionados a classificá-lo como um "songs for the dumb and blind".
# 57
"Most of us are living in one little kind of prison or another, and whether we know it or not the words of a song about someone who is actually in a prison speak for a lot of us who might appear not to be, but really are."
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
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