sexta-feira, 29 de março de 2013

# 141


Hoje, com o Público, e por um preço que é dado.

# 140



















A importância da boa decisão escapou-me da primeira vez que vi Os Descendentes. É natural. Quase sempre procuramos nos filmes aquilo que ecoa na nossa história pessoal, e é também disso que trata esta realização de Alexander Payne. A boa decisão apresenta-se, pelo contrário, no que transcende o homem e a sua passagem pela vida. Decorre no entanto da dádiva da vida, algo que nos foi confiado e com o qual lidamos tantas vezes de forma egoísta. Isto conduz à reflexão de Matt (George Clooney) sobre os elementos da sua família, simbolizados por ilhas de um mesmo arquipélago, isoladas e progressivamente mais distantes umas das outras.
Só que as pessoas partem, como Elizabeth após o coma, e as ilhas, a terra permanece(m) para ser desfrutada por outros e por outras famílias. A construção de Os Descendentes vai das consequências do isolamento, à tomada de consciência que leva à boa decisão (a de Matt em não vender os terrenos que num passado remoto tinham ficado à responsabilidade da sua família), até á reconciliação aparente com as filhas no momento do luto.
O carácter banal da cena final, com os três (pai e filhas) na frente do televisor a comerem gelado, parece sugerir que o filme terminara sim com a boa decisão de Matt: a única que perdura além das gerações vivas em benefício de muitas gerações vindouras, e em respeito por quem veio antes. Os Descendentes faz-se com os elementos de muitos outros filmes dramáticos seus semelhantes, mas não devemos perder o sentido do real alcance. O do indivíduo que consegue ver mais para lá dos próprios dramas. É essa a nossa única decisão.

# 139































O disco, que é muito bom disco, é para aí do tempo em que a classificação de "americana" alimentava conversas entre maluquinhos da música e fazia capas de revistas. De Ryan Adams, não fosse a aparição nos derradeiros instantes do último Judd Apatow, também se perdera o rasto. Parece que a "americana" acabou confinada à geografia de baptismo. Mas isto continua a ser muito bom mesmo.

quarta-feira, 27 de março de 2013

# 138






















O meu chapéu, porque não busco postura sensacionalista, para Lena Dunham e o risco que tomou nos últimos episódios da segunda temporada de Girls. O disturbio obsessivo-compulsivo da protagonista apanha-nos de surpresa e não é tratado com ligeireza. Dunham desafia-se enquanto criadora e actriz, e até ver o espanto é aquilo com que ficamos. Pelo menos desta vez não deixa a personagem sozinha, e a corrida de Adam em tronco nu pelas ruas de Brooklyn é coisa bonita de se ver. E o colo no final, Uau.

# 137
























Like Clockwork. Junho 2013. \m/

# 136

















Ontem tive a excelente notícia de que o novo disco de June Tabor sairá pela ECM. Sairá não, saiu já, há cerca de duas semanas, sob a designação Quercus. A arte de Tabor e dos músicos que a acompanham ganhará mundo com a ECM que tem distribuição alargada a toda a Europa, Estados Unidos e Japão. Espero que seja este o ano ou o próximo em que June Tabor nos volte a visitar. Escutem aqui e agora a canção, exemplo entre dezenas, mas escutem sobretudo a introdução que Tabor faz da mesma. É sempre assim nos seus concertos. Um privilégio interpretativo e um privilégio... interpretativo. Long live June Tabor.

# 135































"A primeira vez que isso acontecera: 8 de abril de 2003. Um céu limpo e azul, o vento de uma primavera que tardava em atravessar as baías do mar galego. O homem parou o carro junto do muro, ao lado da árvore mais alta, diante daquela paisagem de Turner."


Jaime Ramos voltou.

# 134

# 133



















Trata-se de imagem batida mas seguramente aquela que ocorre ao maior número de pessoas que assistam a uma actuação de Jon Hassell. Estamos perante um encantador de serpentes. Alguém que seduz com os elementos repetitivos e hipnóticos guardados nos computadores em ficheiros prontos a activar, e que deixa a plateia num estado entre o fascínio e o torpor, sendo que o hipotético adormecimento pode resultar da descontração que acompanha o expandir da percepção auditiva e da imaginação. Viaja-se muito dentro de nós num concerto de Jon Hassell. Até mesmo os ocasionais pregos digitais não distraem do principal. O fluxo sonoro comandado pelo inconfundível timbre do trompete filtrado pelas electrónicas, que responde tanto a imperativos musicais como biológicos. Como ouvi comentar é um sopro que dá vida. Foi uma vez mais o que aconteceu. Quiçá a celebração da música de Gil Evans que nos era proposta. Sem dúvida a celebração de Jon Hassell em muito serena resposta.

# 132

"Mas era precisamente o fraco quem devia saber ser forte e partir quando o forte se encontrava demasiado fraco para poder sequer ofender o fraco."

terça-feira, 26 de março de 2013

# 131

jon hassell. stop. sketches of the mediterranean. stop. celebrating gil evans. stop. hoje. stop. teatro maria matos sala principal. stop. 22 horas. play.

# 130




Da democracia nas leituras.

# 129


A pergunta é quantas canções terão os Go Betweens escrito com base nos acordes de The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest.

segunda-feira, 25 de março de 2013

# 128




Do meu Sporting para o meu Tottenham.

# 127


Pacific Ocean Blue é um título que não fala do mar.

# 126





















Os Minta & the Brook Trout atiram-se esta sexta-feira, em Sta. Apolónia, à recriação de um dos discos mais amados de todos os tempos. Só Deus sabe o que vai sair dali.

# 125



















Curiosa contaminação a que ocorre entre A Caça de Thomas Vinterberg e O Caçador (The Deer Hunter) de Michael Cimino. Os cenários naturais, a pequena comunidade, rituais que fortalecem relações, e a própria caça ao veado. A guerra e o inimigo é que são totalmente outros. O facto de sabermos sempre da inocência de Lucas leva a que sejam os restantes elementos adultos do filme objecto de escrutínio. Existe a culpa particular e generalizada que se manifesta como se pudesse ser apenas redimida pelo sacrifício de Lucas (impecável Mads Mikkelsen, de vulnerabilidade e força). Um incómodo que o filme de Vinterberg dá a sentir sem que seja alguma vez nomeado. Fantasmas pessoais acompanhados da tacanhez moral que os liberta a instintos de justiça cega. A funcionalidade do mundo prestes a ser posta em causa pela perturbação aumentada à desproporção.
Em tempos de paz exterior outras guerras existem prestes a eclodir. Inimigos mais difíceis de combater porque habitam dentro de nós. Por isso as duas caçadas que seguem em paralelo. Uma dirigida a Lucas pelas outras personagens, homens e mulheres. Outra dirigida a todos sem excepção pelo próprio filme, e a nós também. O desconforto existe mais pelo que não se vê nem fala e que passa directamente para a consciência do espectador. Daí a secura de A Caça e a sua eficácia.

# 124

"Contei-lhe uma história (é mais um mito, pois nem sei se é verdadeira) sobre um vendedor de sistemas telefónicos que desenvolvera um tipo muito particular de sentimento de rejeição. Sempre que era rejeitado por um potencial cliente, esse vendedor ficava encantado, pois isso aproximava-o mais um passo da sua próxima venda. Ele calculava que a sua taxa de sucesso era de uma em cinquenta chamadas telefónicas, por isso, ao contabilizar quarenta rejeições, começava a ficar entusiasmado, pois sabia que a venda estaria para chegar em breve. Isso dava-lhe mais confiança."

sexta-feira, 22 de março de 2013

# 123




Discos ouvem-se várias vezes. Menos hoje porque se passou a comprar canções (tunes) em vez de álbuns físicos, ou então temos demasiados discos para o tempo de que dispomos. Um filme revesse quando calha (cada vez menos no cinema) ou a pretexto de outro filme. Mas rever uma série televisiva é como reler um livro: quanto mais longa a série, tantas mais páginas o livro. São momentos raros e ocasiões que nos definem, e que definem o nosso entendimento das coisas.

# 122




O poeta é o lobo dentro do homem.